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Por que “Misturadas”?

Histórias Misturadas pretende trazer um pouco de tudo. Terá , obviamente, histórias de gente que existiu, existe, ou não. Misturam-se, com elas, casas, ruas, receitas, livros, poemas, pensamentos, experiências, tradições, dúvidas, lembranças. É um saco de muitos gatos de diferentes pelos e tamanhos.  Quem sabe, até, nesse liquidificador, adicionaremos ingredientes em inglês e Francês…

O real poderá esconder-se na ficção, e vice-versa. Verdades e mentiras nas entrelinhas. Justifica-se, portanto, o nome do blog que quer ser aquele armazém de secos e molhados dos velhos tempos.

Velhas lembranças

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Foto por Mausilinda.

 

Das lembranças mais antigas,

um travesseiro pequeno

de penas;

fronha bordada com dois gatinhos

azul

rosa

e um novelo de linha amarelo.

Sol da manhã desenha luzes no tapete floreado da sala.

Cortina balança pelo quadro da janela.

E, no meio da paisagem da sala,

um bebê.

Rola pelo brilho

de flores,

folhas do tapete de sol.

Abraça travesseiro

Beija azul.

Beija rosa.

Beija amarelo.

Molha os olhos dos gatinhos

e a linha do novelo.

E a avó olha a menininha

tão cheia de sal e sol

devolvida à casa,

           vida,

             luz.

  Sente  canteiros de junquilhos,

cheiros da horta de feijões,

pimentões e milho,

salsa e cebolinha,

feixes de louro,

roncadores de couro,

histórias e cantigas,

meias cerzidas junto ao fogão,

cobertores exalando verão

 e a gata preta Luna .

Hoje, quando estou triste e quero voltar

(alguém

algum lugar)

lembro do azul,

   rosa,

 eamarelo

dos gatinhos e novelo de linha.

Sinto carinho dos avós:

abraçam a volta da criança

que, de saudade, quase se foi.

E quero rolar, mais uma vez, pelo amor

         e pela luz  

       do tapete limpinho

     e coberto de cor.

 

 

UMA CANOA

IMG_0244 Foto : Pexel

A canoa virou por deixarem ela virar

Foram tantas as redes

Que o barqueiro mal conseguia remar.

 

Se fosse uma fada e pudesse mergulhar,

Sem me afogar,

Traria barqueiro e presos peixes

Para praias de meu farol.

 

Se fosse uma fada e soubesse voar,

Sem me despedaçar,

Levaria todos para fora do sol

Pertinho do Mago Luar.

 

Se eu fosse um peixinho

Sem me estressar,

Soprava areia branquinha

Pelo fundo do mar.

Se fosse uma fada,

Jogava pirilimpimpim

Sobre redemoinho da canoa que virou,

                      Entre longas ondas do mar.

 

E cantaria sob o céu de luz.

E dançaria com peixes

E contaria ao barqueiro

Histórias sobre  estrelas do mar.

 

Não sou fada.

Não sou peixinho.

Mas posso sonhar

Com redes de tantas canoas

Que fadas

Peixes

Sonhos de piriimpimpim

Buscaram

Lá do fundo do mar.

THAT LIGHTHOUSE

 

She smoothed out

Forest, mountain, train,

Rain, and boat.

She passed and passed.

Though, no guts to cross the moat:

Lighthouse sickbay reclaimed her.

 

Instead, she holed up

Home became burrow and den.

Squinted eyes befell the ditch

Where shivers had lived.

 

She disregarded gloom

And scorned doom.

When sadness came,

She played the zither by the lake.

 

Her sake:

The haven she quarried.

 

Woman, she passed

Flows of menses and hurt.

Frustration, confinement,

And stigma in numb lumps

That crooked left foot.

silhouette of light house under gray dark sky
Photo by Vladyslav Dukhin on Pexels.com

 

She feared the ogle of strangers.

Though, she smoothed it out.

And she stayed.

She passed

Through barbed wires

Of a leftover passion.

She dodged the lighthouse phantom.

 

She had weaved a cloak:

Invisible, she became.

 

Though she stayed.

O OURIVES, FRAU JUNGFREUND E A CAIXA

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Talvez vocês não lembrem, ou ainda não tenham lido, a história da foto do 1º aninho do Vovô Antonio. Tentarei resumir. Foi num dia quente , início de fevereiro, que Frau Jungfreund aproveitou a chegada de um fotógrafo da capital para perpetuar a imagem de seu filho caçula. Após a sesta, à tarde, banhou o menino e vestiu-o. Aprumou-se, com esmero, colocou o menino no carrinho alto e lá se foi.

O estúdio  ficava junto à melhor joalheria da cidadezinha e bem perto do casarão dos Jungfreund. Entrou na loja e cumprimentou o joalheiro que, naquele exato momento, iniciava o processo de derretimento de duas largas alianças que uma viúva recente  trouxera-lhe para que as derretesse: desejava  que as transformasse  em um par de brincos nada delicado—fora dos padrões da época para senhoras distintas—com pedras coloridas advindas das muitas abotoaduras do falecido. Frau Jungfreund pediu-lhe desculpas por interrompê-lo no delicado trabalho. Explicou que tinha hora marcada com o retratista. O joalheiro , então, confidenciou-lhe que não conseguia entender o que levaria a viúva a derreter o símbolo de uma união sagrada e, ainda por cima, tirá-lo do divino para jogá-lo no vulgar. Pior ainda, a futura dona desses enfeites espalhafatosos estaria, com isso—dizia o pessoal do Clube de Canto—a clamar vingança por traição.  Além disso, encomendara vestidos nada modestos. O ourives expressou sua perplexidade frente a tais atitudes. Naquele momento, o fotógrafo chamou a discreta mamãe e seu bebê  para retratá-lo sobre o falso ninho de cegonhas. Depois de várias tentativas, finalmente, a foto perfeita. O artista prometeu entregá-la em uma semana.

A senhora despediu-se dos dois profissionais. Contudo, levou em sua mente a pergunta: “Por que Grete Funcksnell, a viúva, derreteria as alianças e usaria roupas mundanas?”

No Domingo de Ramos (uma semana antes da Páscoa), após o Culto, houve uma confraternização que culminaria com uma rifa. As mulheres reuniram-se no salão da Casa Paroquial. Havia biscoitinhos. Spriztbier[1], espetinhos de pepino em conserva com queijo colonial, fatias de cuca de uva, dispostos sobre uma mesa com toalha branca de crochê.

As senhoras , em pequenos grupos, seguravam pratinhos e guardanapos enquanto conversavam. Tentavam adivinhar qual seria a rifa: afinal os cartões haviam custado mais do que o preço de dois quilos de açúcar. Frau Jungfreund estava quase certa de que seria uma das famosas tortas da esposa do Pastor, ao passo que outras afirmavam ser um daqueles suportes para folhagens, feitos em madeira trabalhada e com painéis pintados à mão, muito em voga naqueles tempos.Os petiscos estavam prestes a acabar, quando Pfarrer[2] Schulholz tocou a campainha.

“Atenção, prezadas senhoras! Chegou a hora de nossa rifa . A venda dos cartões foi além das previsões e, poderemos alegrar um maior número de famílias com distribuição de roupas, alimentos e brinquedos nessa Páscoa. A nossa congregação agradece a colaboração das firmas comerciais, industrialistas, doadores anônimos, da OASE[3] que preparou os acepipes e montou essa linda mesa. E, agora, menção especial de gratidão à distinta Senhora Witwe[4] Funcksnell pelo objeto que, graciosamente, entregou para nosso sorteio. ”

Muitas palmas soaram no salão. Algumas das presentes queriam saber se a doadora viria para retirar o número do interior da caixa de metal. Frau Pfarrer Schulholz[5] comunicou-as que isso seria impossível : a viúva embarcara, em navio da Costeira para , no Rio de Janeiro, tomar um dos novos transatlânticos que aportaria em Gênova. Naquele momento, deveria estar por águas de Santa Catarina. Calaram-se todos. Nem sequer uma pergunta. Apenas olhares enviesados.

Wilhelmina, mulher do Pastor, tocou a sineta e pediu atenção: o sorteio iniciaria em minutos. Seu esposo já conduzia o professor da Escola Dominical ao tablado, no qual, sobre um parlatório, estava a caixa da sorte. Mine, apelido pelo qual era conhecida, encaminhou-se ao velho harmônio e bateu alguns acordes imponentes numa mistura de Bach e Beethoven (e Mine, claro). A um sinal de seu marido, parou o som e , naquele momento, o velho professor retirou o número , mostrou-o ao Pastor que o leu com solene tensão:

“ Ach! Vejo um dois! Alguém tem um 2 ? ” Muitas sorriam. “Agora , vejo o outro número ! Há entre as presentes alguém com outro algarismo além do 2 ?” Algumas pareciam bem nervosas, ao passo que outras já estavam fora do sorteio. “ E o número é…Mas, o numero é…27! Siebenundswanzig  ! VINTE E SETE!”

Incrédula, Frau Jungfreund abanou sua mão. Encaminhou-se ao tablado e mostrou seu cartão. Era o premiado, conferiram o Pastor e o professor. Chegara a hora de saber do premio embrulhado em papel pardo e resguardado por uma teia de cordinhas.

O professor , com uma tesoura, cortou quase uma centena de barbantes que garantiam segurança ao pacote.

O coro “Abre! Abre! Abre!” ecoava pelo ambiente. Ao retirar o último papel pardo, apareceu uma caixa coberta de veludo carmim, cuja minúscula chave fora pendurada ao fecho dourado por uma esmaecida fita de veludo. “Abre! Abre! Abre!” seguia, nesse momento, bem forte. Tremiam as mãos da contemplada. O professor cortou a fitinha. Ela recebeu, prestes a desmaiar, a chave e  abriu a caixa. Retirou, com dificuldade, um porta joias dourado. Professor, Pastor, Mine e a jovem senhora examinaram o premio. De repente, grita o Pastor, “ A caixa de joias é de ouro, ouro 18 quilates!” As paredes ecoavam  “É de ouro!” misturado ao zumbido das exclamações femininas.

“ É o que se pode ler na tampa da caixa de veludo e na parte inferior do porta joias. Deve valer muitos contos de réis. O que estará guardado nessa maravilha?”

Mine e o professor inspecionaram, bem de perto, o dispendioso objeto.

“Está trancafiado à chave. E não há chave”. O Pastor exclamou, quase aos grityos.

Mine demonstrou sua desilusão: como saberiam se havia, ou não, mais ouro na caixa?

Passava do meio dia, quando decidiram que caberia, apenas, à ganhadora do sorteio–e nova dona da caixa de veludo com o objeto de puro ouro edaquilo que poderia estar guardado dentro dele–resolver o problema da chave inexistente e do mistério da caixa de 18 quilates.

Frau Jungfreund colocou tudo na sacola de crochê que Mine lhe emprestara. Agradeceu a todos e foi para casa.

Sua cabeça pulsava com alegria e , até, certa dose de receio. “ Primeiro o ourives com sua desconfiança com as alianças a derreter, agora, eu—por que eu—recebo esse tesouro de Grete?”

Foto por Mausilinda.

Notas:

[1] Cerveja caseira à base de gengibre, sem álcool.

[2] Pastor . sacerdote.

[3] Organização Auxiliar das Senhoras Evangélicas.

[4] Viúva

[5] a esposa do pastor

TRAILS

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As words, smiles, and affection

Drown into quicksand,

Offer him the light in your eyes

And your sweet hand.

 

If the desert pleases him,

Let storms sting the prickly face

Silence has already spoiled.

Walk on, girl, through the lacy sea:

A fertile ground of dreams, shells, and Luaus.

 

 

EVERYWHERE

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Yes, you say,

I am here.

Why are you there?

Why?

Are you afar

For unloving me?

Are you adrift

After I ‘ve washed away?

Are you mute

As you’ve ever been?

Are you sore?

 I do not care.

You say,

I am here.

Where?

I have crashed, dear,

Into many reefs.

As winds abrade you, 

statue of no grief,

I slash my strings

And voiceless

I crawl away from fear.

Amid stones and salt

I will survive

Here and there.

Everywhere.

Photos by Mausilinda

HE IS THE ONE

 

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He is the genius
whose first green
has been a rainbow
in a wet bough.

He has released a shy typist
to break barriers
and fight dragons behind minute keys.

I cast to trash
templates of time wasted.
I open up drawers
and share chains

of words
with sisters and brothers
of worlds
never ready before.

My fingers tickle soft keys
in messages of sweet breeze
to hush-hush crowds
atop the clouds.

He is the guy.
He has winged my flight.
On the mirror of a screen
I see my face gleam
As he and I rise upstream.

 

Photo by Mausilinda

This poem was written as a tribute to Steve Jobs who, with the first MacIntosh made texting a piece of pie for me and many others.

A poem I love

This morning, I came across one of my father’ s old reading books, and there, among other poems, was A Carolina, Machado de Assis’ most well-known sonnet. He wrote it in 1906, two years after his wife for more than thirty years passed away. He seemed unable to find happiness without her and, two years after writing this poem, in 1908, he died. I love his novels. However, his short stories are superb for their plots, language, and for portraying everyday life in diverse social contexts, of the town of Rio de Janeiro in the late 1890’s and early 1900’s.

Why do I love A Carolina? My answer is simple: Love.  It is the representation of the everlasting devotion of a spouse–I do not see him as a widower since she has continued close to him in thoughts and the daily visits to her grave. Machado de Assis tells the world he still loves Carolina. He proclaims his love in a sonnet with its fixed rules and this choice makes his proclamation a lesson of love made publicly and of his intense mastery of language.

The translation I present here has the sole aim of opening a tiny bit the door to Machado de Assis (1839-1908) to those that have never had a chance to get a peek at his writing.

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TO CAROLINA

 

My darling, at the foot of your deathbed

On which you repose from your long life,

I come and always will, hapless dear of mine,

To yield you the companion’s heart.

 

It throbs with that sincere sentiment

That despite all human strife,

Has perked up our existence

And housed in a corner the whole world.

 

I bring you flowers, remains I have plucked

From the soil that has seen us track together

And dead now it leaves us and apart.

 

Today, if l bear in my bruised eyes

Life thoughts I have once dreamed,

These are already gone and terminated.

 

A Carolina

(Original version in Portuguese)

 

Querida, ao pé do leito derradeiro

Em que descansas dessa longa vida,

Aqui venho e virei, pobre querida,

Trazer-te o coração do companheiro.

 

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro

Que, a despeito de toda a humana lida,

Fez a nossa existência apetecida

E num recanto pôs um mundo inteiro.

 

Trago-te flores,—restos arrancados

Da terra que nos viu passar unidos

E ora mortos nos deixa e separados.

 

Que eu, se tenho nos olhos malferidos

Pensamentos de vida formulados,

São pensamentos idos e vividos.

Photo by Mausilinda