Vovô queria ser Antônio

Era uma vez, nos idos do século passado, um Vovô de olhos muito azuis, careca escondida sob boné de lã, e de grande bondade. Tinha , segundo sua mulher–uma Vovó alemã e mandona–muitos defeitos, dentre tantos, a calma. Para ela, isso tinha outro nome: preguiça.

Quando li pela primeira vez o conto  Rip van Winkle (W. Irving, 1819), reconheci esse Vovô como o próprio Rip e sua mulher era, sem dúvida, Dame van Winkle. Nem Vovô nem Rip recebiam sequer momentos de trégua de suas mulheres. Enquanto a vizinhança e a criançada os adoravam, sofriam esses dois homens como frangos recém-chegados a galinheiro já bem estabelecido e com seu galos dominantes..

Rip saia com seu fiel cão para caçar esquilos, enquanto Vovô ia à beira do rio para reunir-se com seus amigos e falar de pescaria, empanturrar-se de comida proibida em sua casa , como linguiçada, muitos ovos fritos na banha e mais pratos desse tipo. Ocasionalmente, até pescavam.

Vovô sonhava com tirar da água do Rio dos Sinos o Grande Grumatã. Afirmou, em várias ocasiões, que chegou a puxá-lo com a linha e, na tentativa de pegá-lo, o peixe escorregou de seus braços. Tinha, inclusive, prova dessa façanha: três escamas lixosas guardadas no bolsinho interno de seu boné favorito. Relíquias ficaram presas a sua camisa, quando o  peixe  desvencilhara-se do aperto dos braços de Vovô.

As tais escamas tornaram-se troféu de sonho quase alcançado. E Vovó, como Dame van Winkle, implicava, “Ach! Só faltava essa! Meio Gott, o boné parece um stinktier (gambá)! Ach! Escamas de lambari !” No entanto, desafiador-disfarçado, carregou as escamas até o fim.  Aliás, seguiram na cabeça de companheiro pescador do sonho do Grande Grumatã, nas bandas da beira do rio.

Esse Rip van Winkle não conseguiu ficar vinte anos em aventuras: aguentou firme sua sina de marido pisoteado. Suas filhas e netas , juntamente com estratégicas fugas para a turma festeira do rio, abrandavam seus dias.

Voltemos ao início. Vovô odiava seu nome. Repetiu incontáveis vezes sua perplexidade ante à atitude de seus pais  ao escolherem seu nome: Ludwig.  Não se conformava e, pior ainda, morria de vergonha. Vovô Lud–gostava desse apelido–apresentava-se como Antônio.  Por que Antônio ? Argumentava que, se nascera no dia de Santo Antônio, tinha o direito de ser chamado de Antônio. E  estava absolutamente certo…

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Vovô queria ser Antonio
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