Medo do Oceano

 

Na escola, aprendêramos que o mar, sem qualquer baia do imenso litoral rio-grandense, era puro oceano. Tão sem graça não ser mar. Para nós, meninazinhas, era mar e pronto. Aquela água salgada dos verões  deitava claras em neve sobre mariscos e conchinhas , cacos de estrelas-do-mar e algas verdes feito grama comprida. Tentávamos recolher, com as mãos, a delicadeza das pequenas bolhas que levávamos à boca e lambíamos. Colhíamos tatuíras e mariscos com nossos baldes de zinco, pintados por Vovô Bino. Colocávamos, também, água e areia molhada para que continuassem vivos peixinhos desgarrados e tatuíras moribundas. Depois, voltávamos às areias altas das dunas do farol de onde, encharcadas de poças estagnadas que a maré alta deixara na noite anterior, rolávamos, desde o alto, pela maciez aquecida daqueles grãos finos como semolina até a grama escassa  e cheia de rosetas que bordava a praia. A descida terminava, seguidamente, em um pedaço de terreno crivado de pinicantes urzes de mata-cavalo . Mas não importava. As agulhadas das rosetas não atrapalhavam a diversão. E a maresia mais o sol, e a profusão de vida nos baldes vermelhos, ao som de gaivotas e pardais cantando conosco, formavam o ciclo contínuo que se repetiria logo cedo, na manhã seguinte, fechando-se, apenas,  no último dia de fevereiro.

Após o café de cevada, com pão de milho feito em casa besuntado de requeijão e melado, cumpríamos as tarefas domésticas, como lavar e secar a louça, arrumar as camas, passar um pano na casa e varrer o pequeno pátio, corríamos, vestidas com nossos maiôs de crochê com uma blusinha por baixo, rodando nossos baldes, ao mesmo tempo que prometíamos ficar só na areia.

Oma repetia sempre que o mar era traiçoeiro e já tragara famílias inteiras. Já ouvíramos a narrativa várias vezes, porém, cada vez que a escutávamos, gerava o medo danado de, como diria a professora, adentrar o oceano. A pior das tragédias repassadas passara-se em noite de garoa, num janeiro, e incluía oito pessoas, entre crianças e adultos, e mais dois mastins. Acamparam bem na Barra do Rio Tramandaí , o lugar mais traiçoeiro da praia. Magicamente, o dia  amanhecera azul  e quente. Entraram, sem delongas, nas ondas convidativas. Aí, surgiu o costumeiro repuxo que os levaria, mais e mais, para as profundezas.

Horas mais tarde, um pescador ali chegou e estranhou a presença do Ford preto  reluzente sem passageiros. Havia uma pilha de latas de leite condensado, duas panelas de ágata com galinha frita e farofa, garrafas de spritzbier, toalhas de banho, chinelos e roupões de vários tamanhos e algumas mamadeiras. Sem esquecer dos dois mastins que não cessavam de uivar. O pescador desconfiou que algo incomum acontecera e gritou por ajuda a um policial que passava a cavalo. Então, juntou gente para fazer perguntas, criar hipóteses, mas nada desvendava o mistério.

A parte mais horrível vinha depois e criou em nós um medo misturado a terror: passados uns seis dias, Oma estava na praia, bem na beirinha, quando uma moça a seu lado começou a gritar e se debater. Mais adiante, um senhor idoso saltava como se fosse um menino e urrava por socorro. O salva-vidas e mais um rapaz musculoso entraram no mar com as bóias e a corda cheirando a piche e peixe velho. Resgataram dois corpos enredados em linhas de pesca e mais outros dois  totalmente desfigurados por mordidas . Com o fluxo e refluxo das ondas, esses infelizes cutucavam os  banhistas.

O mistério do Ford e dos cães fora solucionado: dois corpos apareceram em Capão da Canoa, e um deu à praia em Santa Terezinha, após uma ressaca com ondas de mais de dois metros de altura. Coitado, o que dele sobrou foi parar no quintal de um catador de mariscos. E o outro ? Ninguém sabia. Desconfiavam alguns, certamente leitores da revista Detetive, que os afogamentos poderiam ter sido ato criminoso.  O desaparecido teria planejado e orquestrado o que o Correio do Povo chamara de infortúnio pavoroso. Entretanto, lá por meados de março, um casal de aposentados chegava ao chalé do hotelzinho, aberto até 1º de abril, para aproveitar o iodo  curativo das águas escuras e a calma da praia vazia.  O marido abriu a janela que dava para o avarandado e começou a berrar: havia ossos humanos pendurados na figueira , em frente. Quem fizera aquilo?

Era isso que nos afastava de qualquer desobediência à Oma quanto à distância que devíamos manter do mar. Tínhamos certeza de que, no mínimo, morreríamos de terror, se um esqueleto batesse em nossas pernas, dentro da água. A figueira com ossos dançando ao vento nos arrepiava. Teriam , verdadeiramente, acontecido tais macabrices?  Perguntávamos à Oma se a ossama na figueira era a do oitavo corpo–o homem que chegaram a supor fosse o mentor da tragédia da Barra. Ela, então, nos fitava com olhar de  falcão e replicava: “Será? E quem foi que recolheu aqueles ossos e laçou-os com arame para dependurá-los na figueira com linha de pesca? Alguém fez esse trabalho. Cuidado, quem sabe ainda anda por essas bandas…“

Avistávamos o farol de nossas janelas. Enfeitiçava-nos pensar naquela escada interna apertada e em caracol,  pela qual o faroleiro subia e descia, à noite, com seu lampião. Em tempos de tormenta, no inverno, as ondas lambiam o farol até a metade. E o faroleiro ficava isolado, acendendo e apagando a grande luz no topo, para evitar que traineiras e barcos dos pescadores se perdessem na escuridão sem fim. Vimos, uma vez, o faroleiro: magro e encurvado pela sucessão de dias e noites de vento e rugidos do mar bravo, isolado e sem comida e pelas tantas vezes que devia subir, acocorado, os degraus da escada estonteante. Para nós, o mistério da figueira estava resolvido: fora o faroleiro o pendurador dos ossos.

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2 thoughts on “Medo do Oceano

  1. E tudo nasceu de fatos reais. Ou construídos para nos assustar… Enfim, lembranças enfeitadas daqueles dias em Capão da Canoa…Verões de pura felicidade! Muito obrigada, mana Chica. bjs

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