Caixinha de celuloide

Titia metia-se em assuntos diversos após a sobremesa, à volta da grande mesa da sala.Era leitora de EU SEI TUDO, VAMOS LER e do infalível CORREIO DO POVO, cujas páginas, conforme ela, devorava Da capo al fine—já nos explicara que essa era uma diretiva em partituras musicais para indicar a repetição de uma parte da peça musical. Estava, pois, enfronhada sobre qualquer tópico, atual ou nem tanto. Vovô cultuava as grandes manobras daquilo que chamava de a Batalha de Saicã . Na verdade, tivemos problema, na escola, quando a professora falou nas duas guerras mundiais porque queríamos saber em qual delas tinha acontecido a Grande Batalha de Saicã. E de nada adiantou a explicação dada e o que o livro de História dizia: Vovô não mentia.

Bem, como Titia queria mostrar o quanto era bem informada , relembrara a visita de Getúlio Vargas aos campos dessas grandes manobras para inspecionar tropas e armas, principalmente as novas metralhadoras dinamarquesas—parecia mentira e até nos tocávamos com os pés, por baixo da mesa, que lhes soubesse o nome—Madsen.

Naqueles domingos da década de 50, Titia ficava irritada com as Madsen e seu carregador de inúmeros cartuchos, com a Grande Guerra, com os horrores vividos por seus amigos judeus exilados—o Sr. Petrovski Polanovsky era um deles—, com os moleques que ainda gritavam ‘Apaga a luz, Quinta Coluna!’ e com os americanos que arrasaram Hiroshima e Nagasaki.

Titia já nos passara, cada vez com uma pincelada a mais, a estória do velho Sr. Petrovski que aniversariava no dia de Natal e envelhecera completamente solito no mundo—assim falava Vovô Lud, influenciado pelos falares dos vacarianos que, sentados em pelegos, engatavam as horas em sua selaria, a cevar mate e a charlar sobre comida, cavalos, esposas mandonas, assombrações e o obituário do lugarejo.

O polonês vivera muitos anos no galpão da chácara de Oma: ajudava a plantar e colher; arrumava carrinhos de mão e carroças; tratava a vaca, os cabritos; preparava lavagem para os dois porcos.

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 Cerzia suas roupas com perfeição de alfaiate. Preparava, no fogãozinho campeiro de seu cômodo, cozidos cheirosos (gulasz). A única coisa que pedia, diariamente, era café com cuca. Amava-os tanto quanto seu palheiro, cujos componentes Vovô Lud lhe fornecia, já que repartia com o amigo o gosto pelo ‘pito’, em longas baforadas às escondidas, no galpão.

Era encurvado, cabelos brancos e ralos, barba longa e botinas grandes. Fugira, ninguém sabia como—ele não contava—de Theresienstadt , pouco antes que o enviassem, de trem, para um campo de extermínio. Falava que vivera o início de Gueto de Varsóvia, do qual se salvara por ser exímio violinista. Um comandante da Gestapo levara-o a fim de que executasse árias de Wagner em sua caserna. Depois, foi mandado a Theresienstadt para integrar aquele cenário montado com intenção de enganar a inspeção da Cruz Vermelha sueca: representar o que, aos olhos dos poderosos daquelas terras devastadas, seria a vida normal dos judeus, com lojas, correio, moeda própria, cafés, teatros. Seu Petrovski ‘trabalhava’ em um desses cafés, nos quais uma pequena orquestra tocava músicas populares alemãs mescladas a alguns clássicos da preferência do Führer. Seu Petrovski contara isso ao Vovô Lud, seu companheiro de cigarros de palha, em meio a pratadas de cozido com muito wurst—trazido lá da beira do rio—e baforadas prazerosas. Veio, dizia ele, incognito para o sul do Brasil, num vapor da Costeira.

Será que seu nome era mesmo Petrovski Polanovsky? Em casa,todos falavam de seus pesadelos, com gritos pedindo “Rauss! Rauss!”(Fora! Fora!). Segundo ele, em noites escuras, a policia nazista irrompia pela sua porta e, com facas, ameaçavam castrá-lo.

Uma noite Sr. Polanovsky sumiu. Vovô Lud, na manhã seguinte, lembrou-se de Fraulein Marichen, no hospital. A enfermeira amiga de nosso bisavô ouviu a longa história e a descrição do desaparecido e, prontamente, encaminhou-o à enfermaria dos homens. Seu Petrovski tropeçara e caíra sobre uma pedra , na Rua Grande. Uma alma caridosa—palavras de Titia—trouxera-o ao hospital: havia fraturado a bacia e o fêmur. E ali, apoiado entre travesseiros de penas de ganso, adormecera enquanto tentava unir as partes de uma caixinha de celulóide. A agulha rombuda e uma linha azul deslizavam entre seus dedos de violinista. Seu Petrovski partira sem finalizar a tarefa. Ao longe, alguém ensaiava sons de uma valsa de Chopin apenas para ele…

Essas conversas constituíam retalhos de vida que se embaraçavam. Os adultos achavam tudo normal, enquanto nós ficávamos perdidas em alguns desses trapinhos. Nossa cabeça fundia Seu Petrovski com Hiroshima, Nagasaki e quinta coluna com as maléficas Madsen da Batalha de Saicã.

 

Notas da autora:

Saicã era, e ainda é, um campo de treinamento militar situado no Rio Grande do Sul.  Ali realizam-se as chamadas manobras que simulam situações de guerra. Vovô participou delas logo após o término da 1ª Guerra Mundial.

Hospitais do interior, geralmente, pertenciam a ordens religiosas e, antes de SUS /INSS, havia para aqueles sem possibilidade de pagar qualquer procedimento e internação as enfermarias de indigentes  (uma para homens e outra para mulheres). Enquanto convalesciam, pacientes recebiam tarefas  de trabalhos manuais, realizadas no próprio leito,  as quais, uma vez prontas,  eram vendidas em um bazar, no próprio hospital. A verba resultante revertia em benefício dessas enfermarias.  Predominavam , aí, caixinhas e enfeites feitos com material reciclado de velhas radiografias, devidamente limpas: era o celuloide, anterior à existência do plástico.

 

 

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