Conversas de Tia Ella

 

Os adultos, ao nosso redor, não nos ofereciam resposta satisfatória a certas questões do cotidiano e aos pedaços de assuntos que, repentinamente, falavam em alemão. Momentos singulares assim surgiam quando, sabe-se lá porquê, Oma, que fora parteira no interior da Colônia, deixava escapar algum caso esdrúxulo de seu ofício. Acreditavam que não entendíamos essa língua, porém, o problema era outro: carecíamos de conhecimentos necessários para perceber os entremeios do assunto. Anotávamos, na memória, até a próxima terça ou sexta à tarde. Por quê ? Eram os dias mais repletos de suspense da semana pois Tia Ella estava lá em casa para auxiliar Vovó, sexta-feira, e Titia, terça-feira, nas lides domesticas.

Tia Ella era uma senhora muito magra e alta, óculos de lentes grossas, cabelos escuros, curtos e encrespados. Uma de suas marcas era a pressa decorrente de sua ansiedade. Fazia tudo muito rápido tanto que Vovô vivia consertando as tomadas elétricas da casa porque Tia Ella , invariavelmente, arrancava os quebra-luzes de seus lugares puxando-os , de longe, pelo rabicho. Morria de medo de levar um choque. Contava que , certa feita, tropeçara numa vassoura e seu pé tocara o fio desencapado de uma lâmpada de cabeceira e, pluft !, acordara zonza, no quarto de Frau Selbschein, sua antiga patroa das terças-feiras. Não lembrava como parara ali e nem como seus cabelos lisos como fiapos de milho ficaram completamente encaracolados.

tia ella

Voltávamos da escola ao meio-dia e , depois do almoço, fazíamos questão de ajudar Tia Ella com a louça. Às escondidas, enquanto Vovó e Titia sesteavam e Vovô voltava à fábrica, ela nos explicava muitas das dúvidas com as quais os mais velhos nos angustiavam sem querer. Queriam nos manter crianças, afastando-nos de dilemas ligados à vida e à morte. Hoje, percebemos que Tia Ella, no afã de aclarar idéias, empilhava sobre o desconhecido novos medos, através da porta que escancarava para o sobrenatural.

Tia Ella ouvira dizer que as coisas ocorrem quando aquele, cujo nome não se deve nunca pronunciar , escolhe uma mulher para ter um filho. Geralmente, acaba assim porque Mein Liebe Gott (Meu querido Deus) não deixa que uma semente assim brote. Semente? Como? E Tia Ella, para deixar as sementes, contava casos de enforcadas e afogadas que, ao serem recolhidas, botavam para fora uma coisas parecidas com ovos. “Mas, não falem que contei isso para vocês, bitte!” suplicava ela. Nossa cabeça revirava ante a idéia de mulheres botarem ovos ! E ela respondia que não eram ovos, mas coisas como bolas golesmentas, Além disso, coisas semelhantes só aconteciam com aquelas que, sem ninguém ver, se atiravam na água funda do rio ou se dependuravam, por uma corda, num galho e ali ficavam balançando até que alguém as encontrasse. “Essas coitadas eram as escolhidas pelo Cruz Credo”. Continuava sua descrição das tais coisas melequentas : “ Minha comadre trabalha no Hospital Municipal e viu uma delas partida ao meio, no lixo da sala de cirurgia. Ela jurou que a coisa mostrava umas guampinhas e um toco de rabinho! Mein Liebe Gott ! ”

Sabíamos que teríamos pesadelo com isso. O pior é que não podíamos conversar com ninguém sobre o assunto. Decidimos pesquisar na Bíblia e na grande Enciclopédia Jackson que, segundo Titia, reuniam todo conhecimento que havia no mundo.

Assombravam-nos   seus testemunhos do desconhecido escondido próximo de nós. Distraia-se com a platéia atenta sempre pronta para tradições exóticas que Tia Ella nos fazia conhecer. A faxina da morte integrava seu arsenal do incompreensível. Confessava-nos seu temor, quando uma de suas amigas-patroas lhe pediam a faxina completíssima: colocar, no lixo, cartas velhas, cartões, recortes de jornal, roupas antigas, vestidos de baile, sombrinhas estragadas, sapatos, roupas de cama por demais remendadas, enfeites e tantos outros objetos que sempre tiveram seu lugar na casa… Surpreendia-se com a profusão de fotos espalhadas por gavetas e caixas: devia colocá-las, todas, num único lugar, geralmente, uma lata de biscoitos Aymoré , sobre a qual, a patroa grudava—com cola de polvilho feita em casa—um papel com a palavra FOTOS.

Tia Ella, apesar de luterana, limpava tudo conforme pedidos da dona da casa, benzendo-se a cada momento. Tia Ella entendia que estava preparando o lugar para a morte de sua amiga. Queria cercar-se de todas elas para sempre, com o mate doce da tarde, cafés com pão feito em casa com schmier de ovo, ou com banha fresca salpicada de sal. E não eram somente essas coisas tão materiais—e gostosas—que a faziam chorar por antecipação, mas o amor que sentia por essas mulheres em cujas casas sentia-se acolhida e confortada.. Tanto isso era verdade que, às vezes, negava-se a receber seu pagamento por tal trabalho..

Tia Ella nos contava que uma faxina assim—no portal da morte pressentida—mostrava que as senhoras preocupavam-se com possíveis lembranças que deixariam em recortes, bilhetes, cartas, fotos, escritos e quinquilharias. Acreditava que, quando pronta a faxina, Deus, olhando para baixo, veria que estava tudo pronto, e, então, poderia vir buscar sua amiga. E a faxina começava bem devagar, entretanto, muitas vezes, era postergada. “Bom sinal”, confessava Tia Ella.

O pior eram suas tentativas de explicar as conversas que ouvíamos sobre cremação. “Ach! Isso quer dizer torrar, num forno bem grande e quente, um falecido até virar cinzas. Tenho uma patroa que tem na sala um vaso bem fechado com as cinzas do marido morto. Quando falo nisso, me dá um nervoso! Esperem aí que vou tomar Maracujina para parar de tremer! ” E tirava, do bolsão do avental, um vidro . Abria-o e tomava alguns goles, do gargalo. E prosseguia sua contação. Apesar do medo de tornar-se um bocado de cinzas em um vaso de uma sala qualquer, arrepiava-se e tremia só de pensar nas minhocas a cavar túneis dentro dela. Queimada , ou torrada como gostava de dizer, não teria bicho algum dentro dela. No entanto, o fato de o fogo estabelecer ligações com um outro fogo, temível era o que a atormentava demais. De repente, a câmara ardente despertaria o inominável que estaria mais do que pronto para carregá-la. “Mein Liebe Gott, prefiro as minhocas”.

 

Ilustração: Mausilinda, 2017.

3 thoughts on “Conversas de Tia Ella

  1. Na verdade, Tia Ella existiu. Menos assombrosa, porém, nem por isso menos apavorada com as tristezas daquele mundinho que perseguia para diminuir seu próprio drama. Isso, no entanto, fica para outra história.

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