A Pena, o Peixe e Tia Ella

Éramos vizinhas de Titia, separadas apenas por um portão, o qual cruzávamos inúmeras vezes a cada dia. A casa em que morávamos, aliás, era dela. Fôramos para lá logo depois que Titia enviuvara, aos quarenta e poucos anos. Uma velha, pensávamos e cutucávamo-nos quando Vovó e Oma comentavam, “Que coisa séria, Maarten falecer prematuramente e deixar Ingeborg sozinha, tão jovem !” Achávamos que Titia não tinha nada de jovem e que prematuro, mesmo, tinha sido aquele recém-nascido—natimorto, dizia Titia—do pastor sueco e sua esposa.

Esse nenê viveu em nossos pesadelos durante anos, principalmente, em noites de ventania e trovões. Víamos a criancinha, toda roxa, abrir e fechar os olhinhos e voar sobre o lustre da sala na qual fora velada. Jurávamos que não eram sonhos: o bebê voltava mesmo, procurando a mãe para consolá-la. Por mais que nos explicassem, não conseguíamos entender como alguém pode nascer morto—se nasce, tem que estar vivo. Era tão bonitinho e grandinho, apesar de ter vindo antes do tempo, e todo vestido como para um batizado. E a mãe que chorava sem parar. E o pai, pastor, repetindo, em um português atravessado pela língua de sua terra distante, “Foi para a céu. Está muita pemm.” E não adiantava, a mãe chorava cada vez mais. Também, como pode alguém estar ‘muita pemm’ todo roxinho, deitado dentro de uma caixa ! Além do mais, que céu que nada, ele estava ali, gordinho e bonito, deitado na caixa, bem no meio da sala.

Um dia, Tia Ella, nossa faxineira e mensageira do apocalipse, gritou por Vovó. Um grito horrendo, daqueles dos filmes de terror das matinês de domingo. Corremos todos e lá estava ela, esparramada no tapete de flores, com uma peninha branca na mão.

Schnell! Schnell[1]! Acudam ! Vi uma galinha branca pousada no lustre, peguei a vassoura e toquei-a dali. Quando alçou vôo, era um anjo. Falou umas coisas numa língua estranha—não era alemão—e saiu por entre as cortinas daquele janelão , ali perto do piano. Quando dei de mim, tinha esta pena na mão. Acho que era de sua asinha. Vou, agora mesmo, falar com o pastor. Estou nervosa, nervosa, nervosa.”

Oma sacudia a cabeça e secava as mão no avental, “Es ist unmöglich ! Achtung, ich sage Branntwein , egal wie sein Man.[2] Titia, então, arregalou, como de costume, os olhos para criar impacto, e sentenciou, “É um sinal para buscares coisas boas e te livrares dessas manias lamentáveis de testemunhar apenas desgraças, mesmo que, para isto, tenhas que remar pela enchente ou fugir de golpes de facão de homens que lavaram a honra com sangue. Lembra bem, um anjo apareceu para ti. Isso é só para escolhidos, ou, para os que escolheram as agruras da vida, aqui nesta passagem terrena. Não deves temer: anjos só vêm para melhorar a vida dos que escolhem. Lembra do anjo do Natal, lá em Belém ? ‘Hosana nas alturas ! Eis que vos trago boas novas’, disse ele aos pastores que cuidavam das ovelhas nos campos.” Vovô entrou neste momento. Passou sua mão enorme e calejada na testa de Ella, dizendo, “O Senhor te abençoe e te guarde. Calma e sangue frio.”

Para tudo, Vovô usava as palavras ‘calma e sangue frio’. Lá, entre as flores da alamanda, minha irmã e eu conseguíamos vislumbrar umas pontinhas brancas. Será que Tia Ella o espantara mesmo com a vassoura ? Enquanto os adultos voltavam a seu estado de quase normalidade, petrificamo-nos debruçadas no parapeito da janela, com olhos e mãos em prece: “Santo Anjo do Senhor, nosso zeloso guardador, se a Ti nos confiou a bondade divina, sempre nos rege, nos guarda e  ilumina. Amém.”

Essa oração veio de empréstimo dos meses no kindergarten católico para o qual eu ia, aos prantos, de manhã.Os mais velhos da casa julgavam ser a escolinha um remédio para a timidez. Minhas irmãs ainda não tinham idade para essa prisão infantil, mas aprenderam a conversa com Anjo da Guarda . Além disso, havia o quadrinho antigo do anjo guiando, pela mão, uma criança por um despenhadeiro entre as nossas camas. Devia ser um anjo desse tipo que aparecera para Tia Ella, ainda que a sala não tivesse precipícios. E, afinal, conforme o testemunho soluçado de Tia Ella, era um ser bem pequenino, de asas macias.

Tia Ella nunca logrou levar a pluminha para o pastor. Quando ia chegando em casa, pena presa na corrente do crucifixo que trazia ao peito, encontrou uma comadre. Contou-lhe o evento. A comadre disse-lhe que dava um azar danado carregar penas, mesmo que fossem de um anjo. Arrancou-a da corrente de Tia Ella, juntou uma pedrinha do chão, embrulhou-a com a pena no papel de pão que cobria os bolinhos de chuva para uma amiga. “Pobrezinha, está nos seus últimos suspiros…”, explicou Tia Ella. A comadre, então, correu até o rio, a uns dez passos dali. Fez três vezes o sinal da cruz e, em seguida, arremessou o pacotinho nas águas barrentas.

Aí, mesmo, é que se apavorou: quando a bolinha com pena e pedrinha enroladas no papel tocou a água, provocou uma marola enorme que, ao chegar à praia, cuspiu no lodo da margem um dourado de uns três quilos, no mínimo. A comadre correu, repetindo,”Viu, eu sabia que era coisa ruim! Eu sabia! Agora estás livre. Eu sabia, pena dá um azar!”

Foi esse dourado que Tia Ella recolheu vivo e levou-o, num balde esmaltado, até o pastor. Porém, não teve coragem de contar-lhe a história. Só disse que pegara o peixe na rede e lembrara-se dele. Mas, lá no fundo, pensava, “Fiz a coisa certa ? “

Tia Ella e o peixe

Até o final de seus tempos de faxineira, passava pela sala como um furacão: em menos de meia hora o serviço, ali, era dado como pronto. Era uma barulheira de móveis arrastados, vassoura batendo em tudo, bibelôs quebrados. Olhava, apenas para baixo. Não tirava pó ou teias de aranha do forro e do lustre nem que lhe implorassem: mentia que sim, havia limpado tudo, mas que as aranhas eram muitas e trabalhadeiras demais.

Muitas vezes perguntávamos, enquanto ajudávamos Tia Ella com a louça do almoço, se ela limpara o tal peixe antes de dá-lo de presente ao pastor e se encontrara a pluminha do anjo nas tripinhas do dourado. Tia Ella estancava. Tomava uns goles da Maracujina guardada no avental. Por uns instantes, assemelhava-se às estátuas de sal das quais Titia falava com pompa e circunstância. Olhava-nos com espanto. Finalmente, voltava à vida e às panelas e retrucava,“Ach! Qual nada!… Her Pastor falou alguma coisa ? Mein Liebe Gott! [3]

Será que o nenezinho da caixa ainda voa pela sala, enquanto a gente dorme ? Uuuui! “Santo Anjo do Senhor, nosso zeloso guardador, se a Ti nos confiou a bondade divina, sempre nos rege guarda e ilumina. Amém.”

Ilustração by Mausilinda 

 

[1] Rápido! Rápido! Rápido!

[2] Isso é besteira! Atenção, digo que é beberagem, igualzinha a seu marido.

[3] Meu querido Deus !

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