ELFRIEDE, que vida…

AE04A8AC-7B43-4B03-B941-1265ADCF4B8CAprendêramos a palavra lúgubre com Titia em uma de suas histórias sobre coisas misteriosas. Mais precisamente, sobre aquela da mulher jovem—o marido achava-a linda, no entanto sua cabeleira farta era quase um fogaréu e seus olhos azuis eram um exagero de grandes—e rica , dona de um cavalo árabe negro, companheiro de suas cavalgadas pelas campinas e charcos de sua faustosa propriedade. Um senãozinho (segundo Titia, tudo que é bom tem algo torto): padecia, sem saber, de um mal raro com nome complicado. O tique-taque grave do relógio da sala remetia ao caso, narrado como verídico por Titia,

 Assim, como Branca de Neve após morder a maçã, Elfriede, a tal esposa rica e meio feia, desfaleceu após uma cavalgada e , quando colocaram um espelho frente à sua boca, esse mostrava-se perfeito, sem qualquer embaçado. O marido bilionário desesperou-se e cobriu o cadáver de sua amada com as mais lindas e preciosas jóias.

O coveiro, um miserável que lutava por um pedaço de pão dormido, espiou por trás de um cipreste a abertura do esquife para que o angustiado viúvo contemplasse, pela vez derradeira, sua companheira.

Surgia-lhe, naquele momento uma idéia para solução da fome de sua numerosa prole : aquelas pedras preciosas desperdiçadas em um cadáver. À meia-noite, enxada e pá às costas, foi ao jazigo de mármore da família enlutada. Abriu a porta com a chave que recebera para manter limpo o lúgubre local. Chegou ao caixão de mogno com tampa de cristal da Baviera. Enfiou a pá entre o vidro e a madeira. Forçou e forçou até que a tampa, finalmente, rendeu-se a seus esforços. Suspirou aliviado. Tirou os colares de esmeraldas, as pulseiras de ouro e diamantes, a tiara de pérolas e rubis. Faltavam os anéis. Ao puxá-los, para que deixassem aqueles dedos longos e alvos, a jovem senhora agarrou-se a seu pescoço aos berros de : ‘Tire-me daqui ! Tire-me daqui, por amor aos Céus !’ O atônito coveiro estava prestes a desmaiar. Ela, porém, falou: ‘ Não tenhas medo. Estou viva e, graças ao senhor, posso continuar vivendo. Fique com essas jóias e com muitas outras que tenho em  casa.’

Estupefato , o homem—tremia todinho—levou-a em sua carroça até ao imponente portão de seu palacete. Tocou, com força, a aldrava de cobre trabalhado em forma de serpente. O mordomo desmaiou ao vê-la. Então, o marido desceu, aos saltos, a imponente escadaria e chegou até a porta: lá estava sua amada, envolta na bruma enluarada. Não lhe importava se era uma aparição ou se era mesmo ela, abraçou-a com ternura e suas lágrimas misturaram-se às dela.

O coveiro, desde então, passou a receber, mensalmente, comes e bebes que garantiam a satisfação de sua família. E a moça viveu feliz com seu marido por mais de duas décadas Ficara, todavia, traumatizada com o acontecido e, em seus pesadelos, acabava, infalivelmente, enterrada viva. Completariam naquele ano, em abril, vinte cinco anos de casados. O marido preparou-lhe uma surpresa: passagens de 1.a classe para a viagem inaugural de um insubmergível transatlântico inglês.

Antes do embarque para a Inglaterra, onde iniciaria a viagem, ela sonhou, novamente, com seu sepultamento. Debatia-se muito e gritava por ar dentro de caixa comprida e estreita, ainda que bastante macia devido aos capitonês em sedas de Damasco. Seus braços e pernas batiam nos lados e tampa e, além disso, não havia ar. “Ar! Ar, pelo amor de Deus! Socorro! Acudam-me!”, berrava com a cabeça enfiada no travesseiro de cetim. O marido sacudiu-a e conseguiu despertá-la. Levou-a até a janela para respirar a brisa da primavera que recém começara.

Havia, logo mais adiante, um clarão. Incendiara-se o galpão de ferramentas localizado bem próximo à moradia do caseiro. Depois de acalmadas as chamas e alojada a família do caseiro em uma ala do palacete, pressentiu, aí, um aviso. Pediu ao marido que desistisse da viagem. Ao invés disso, ele providenciou um tabelião para algumas alterações no testamento. Depois, tomaram o trem até Paris—esqueci de dizer que moravam na Alemanha. Cruzaram o Canal da Mancha em potente barca e chegaram ao porto de embarque. Houve muitas festas. Embarcaram e, na primeira noite, após o baile no grande salão, sonhou, outra vez, com a caixa lacrada dentro da qual tentava respirar. A navegação seguia tranqüila e cheia de luxos.

Uma noite , após um lauto jantar seguido de muitos rodopios em valsas e alegres correrias nas polonaises abrilhantadas pela orquestra toda de fraque, no salão reluzente, dirigiram-se a sua cabine nababesca. Brindaram seu amor e a viagem com champagne legítima—enfatizou Titia—e deitaram-se. Enquanto dormiam envoltos em sedas, linhos irlandeses e perfumes franceses, o navio foi a pique.

Titia arregalou, como de costume, os olhos azuis e complementou, com voz de profetisa, que essa fora desgraça anunciada pois, em 1898, houvera a previsão de igual desastre em Futilidade, livro que Tio Maarten lera há alguns anos. Morgan Robertson, um autor inglês, publicara-o catorze anos antes de acontecer a catástrofe e acertara, em cheio, na descrição do grande transatlântico,  número de passageiros e na falta de botes salva-vidas. E até o mês em que o Titanic afundaria estava na obra! Ninguém conseguiu explicar como o tal Robertson atingira tamanha precisão. Seria ele um mago? Até acho que sim,  era um iluminado de outra dimensão enviado para tentar mudar os destinos daquelas duas mil pessoas.

Voltemos ao caso. Elfriede era cataléptica e fora colocada no caixão com vida; o coveiro resgatou-a e foi premiado com cotidiano sossegado; morreram os aquinhoados senhores do palacete. Então, após o tempo regulamentar previsto nas leis da época, o tabelião e o curador dos bens do casal abriram o testamento que, assim, rezava: as outras propriedades—exceto o palacete com seu terreno que ficavam, todinhos, para o antigo coveiro, com seus móveis, lustres de cristais da Áustria e Itália, estatuetas e enfeites preciosos, cavalariças e cavalos e o cofre abarrotado[intervenção de Titia]—deveriam ser vendidas e o dinheiro enviado para o único parente, na Hungria. Esse homem vivia solitário num antigo casarão de pedra e dedicava seu tempo a cuidar de  vinhedos seculares , de seus canteiros de ervas finas, framboesas e  mirtilos, vaccinium myrtillus , segundo complementação de Titia, com sua mania de mostrar o que aprendera num curso de Botânica do Almanaque do Eu Sei Tudo . Possuía , também, algumas cabras e uma vaca. Sua vida era muito simples: fazia seu próprio pão, caçava pequenos animais, preparava seus queijos.

Logo após a infausta—outra das palavras que Titia acreditava muito sofisticada—notícia do passamento dessa prima fadada a infortúnios, despojou-se de suas vantagens materiais e empregou o dinheiro, infindável, na ajuda para salvar vidas na selva africana. A única coisa que fez questão de manter consigo foi o violino da prima, pois o seu rachara há muito.

O violino… Isso é outra história.

 

Ilustração by Mausilinda

Advertisements

2 thoughts on “ELFRIEDE, que vida…

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s