BELLA e um violino

bellaaaacasa situava-se numa elevação coberta por relva, touceiras de capim-limão, gravatás e árvores que, talvez, alguém plantara há muitas décadas, como araçazeiros, bergamoteiras, limoeiros , uma jabuticabeira e um torto pessegueiro. Oma, lá de cima, conseguia, através das muitas janelas e varandas da casa, averiguar quem chegava para pescar ou para um convescote à beira do rio. Geralmente, descia para cumprimentar, disfarçando, aí, sua ansiedade em estabelecer uma espécie de interrogatório: “Você mora por aqui ? Mora na Grosse Strasse ? Spiegelberg ? É Musterreiter ?” E assim ia.

Um dia,  Sexta-Feira Santa, chegaram à beira do rio, numa aranha puxada por um cavalo belga, um homem alto, de farta cabeleira, uma senhora idosa e uma menina franzina. Apearam . O homem amarrou o cavalo a um tronco espinhento de maricá. A menina, em um vestido de riscado, meias grossas e tamancos de grossa sola de madeira, ia à frente. Oma, do peitoril do janelão da sala, assistia à chegada dessa família, com seus braços roliços apoiados sobre uma puída almofada de seda preta adornada por flores coloridas de crochê. Nunca os vira antes, apesar de a cerração e a distância prejudicarem seu julgamento.

Colocou um xale de restos de lã, tricotado nas noites de inverno com sobras de novelos, para proteger-se da aragem fria daquela manhã de abril, e desceu a pequena escadaria. Aproximou-se dos visitantes. “Guten Morgen, ops, bom-dia ! Moro aqui, naquela casa”, apontou para o alto da pequena colina.. “Se vocês quiserem alguma coisa, um chá quentinho, ou lavar as mãos, ir ao banheiro, não façam cerimônia.”

Besten Dank[1], respondeu a senhora idosa, cujo nome era Bárbara.</stron“Talvez precisaremos lavar as mãos, quando estivermos prontos. E minha filha está com sede”.

“Vieram pescar, vejo que trazem um caniço ? Neste ponto do rio só há peixes pequenos, lambaris, mandinhos—aliás terríveis, porque têm uns espinhos no lombo que espetam os dedos da gente—e cascudos. Se vocês forem adiante, a um quilômetro e meio daqui, poderão até encontrar um dourado.”

” Não faz mal se os peixes forem pequenos. Estamos aqui para buscar peixes para uma simpatia”, falou dona Bárbara. “Só precisamos de um peixinho e tem que ser antes do meio dia. É que Bella, minha filhinha mais nova, é muito fraquinha dos pulmões.”

Nisso, o homem da farta cabeleira avisava que pescara o peixe. Dona Bárbara chamou Bella. Abriu a boca do peixe e a menina, então, fungou, fortemente, e cuspiu, diretamente para dentro da boca do peixe, o muco esverdeado com raias de sangue e a saliva de sua boca. Seu irmão fechou a boca do lambari e jogou-o de volta às águas, enquanto sua mãe murmurava frases mágicas em húngaro. Oma testemunhava tudo. Terminado o ritual, convidou-os para ir até a casa.

Abriu a porta principal e conduziu-os à varanda envidraçada. Foi à cozinha e, de lá, trouxe uma bandeja, guarnecida por um guardanapo de crochê, com uma jarrinha de suco de uva, um copo de vidro verde, três xícaras e um bule esmaltado azul pintado de flores amarelas, no qual fumegava um chá de capim cidró, funcho e folhas de laranjeira. Havia, também, um açucareiro meio lascado combinando com o bule e algumas colherinhas. Serviu o suco para Bella e chá para os adultos. Do grande arco, com um reposteiro de brocado creme, podia-se ver a sala de estar: cadeiras e um sofá de madeira torneada, com assentos e espaldares claros de couro trançado, mesinhas e alguns suportes escuros e altos, com paisagens e flores vibrantes pintadas no painel superior retangular a apoiar vasos de cobre com samambaias, avencas, babosas e mimos-de-vênus.

Frente a uma janela lateral, havia uma mesa com uma cítara. Maarten indagou a Oma:
“Quem toca este instrumento ?”

Respondeu que era Titia, ao que ele, entusiasmado, perguntou se Titia poderia dar-lhe a honra de tocar uma ária. Oma chamou Titia, que chegou à varanda com um bastidor, linhas de seda verdes, azuis, marrons e vermelhas ao pescoço e uma agulha com fios verdes presa a uma folha desenhada no bordado. Apresentou-a aos visitantes e enfatiza-lhe que o Sr. Marteen gostaria de ouvi-la tocar alguma coisa. Imediatamente, Titia, surpresa, retrucou, ”Senhor, hoje é Karfreitag[2] dia de muito respeito pela morte de Cristo, na cruz. Temos que guardar silêncio.”

O jovem senhor insistiu que gostava tanto de cítara e que um hino poderia ser uma respeitosa homenagem ao sacrifício feito por Ele . Oma, Bárbara e Bella concordaram.

Titia largou o bordado sobre um aparador com um trilho de tricô e um vaso de alpaca com um flores de marcela. Sentou-se à mesa, colocou a dedeira de marfim no dedo e tocou “Castelo forte é nosso Deus”. Ao final, como era um dia santo, ninguém aplaudiu, mas Bárbara, com seu lenço de cambraia, secava lágrimas de emoção. Maarten cumprimentou-a pela virtuosidade e tomou-lhe a mão, pousando, nos dedos de Titia, um beijo leve e cavalheiresco. Titia enrubeceu e baixou o rosto, alheia aos galanteios.

Titia demonstrava sua alta autoestima ao descrever-se naquele momento.

“Parecia uma imagem dos nibelungos, iluminada pela luz da janela. Uma deusa germânica da música. Jamais esquecerei desses momentos.”

E nunca esqueceu, mesmo. Bella melhorou um pouco da tosse, mas o peixinho–pensávamos enquanto Titia, décadas mais tarde, nos contava sobre o começo de seu romance com Maarten–por certo morrera, ou afogado nas cuspidas pegajosas e vermelhentas de Bella ou da mesma fraqueza que consumia a menina. Apostávamos ter sido de fraqueza: como poderia nadar na correnteza marrom do Rio dos Sinos, desviando-se dos espinhos dos maricás com a barriga pesada com o ranho doente de Bella? Era óbvio que fora perdendo suas forças depois daquela sexta-feira.

Bella era muito bonita, branca como um biscuit, na descrição de Titia. “Era frágil e não queria comer verduras, canjica, gulash, nem leite. Não gostava de nada. Só de bifes.” Aí, olhava para nós, especialmente para minha irmã, com um azul de espetar-nos a alma .”Pois é, Dona Bárbara tinha muitos outros filhos e poucos recursos. Quando ela e o marido vieram para o Brasil, deixaram quase tudo na Velha Europa.”

Durante muito tempo acreditamos que essa Europa era o nome de uma senhora muito idosa que morava longe, porque, sabíamos pelo atlas, muito antigo e chei de orelhas de burro, de Vovô Lud, que Europa era um nome de lugar, lá do outro lado do mar. A dúvida provinha do fato de, entre as conhecidas de Vovó e Titia, haver algumas chamadas de Islândia, Reno, Danúbia, Roma. Sem falar do Velho Brasil, um professor falecido há muito e personagem de vários causos, lá em Cima da Serra. Além disso, nunca falavam em Europa, apenas em Velha Europa.

A narrativa sobre essa tal guriazinha fracote ia e vinha , especialmente à hora do almoço. Titia ressaltava que o os alimentos colocados sobre a mesa todos deveriam, obrigatoriamente, comer, gostassem ou não. E lá vinha a menina do peixe… Titia repetia, “Bella, negava-se a comer de tudo. Ficava muito branquinha e quase desmaiava, tentando engolir pedaços de batata doce, nabo, moranga, repolho , aipim. E começava a tossir até ficar roxinha. E ficava cada vez mais magrinha e , num desses almoços de gulash bem grosso, para dar substância à refeição, Bella engasgou-se e, nos espasmos da tosse, cobriu seu prato de encarnado. Foi um susto só. Aí, foram até o rio fazer a simpatia. A menina ganhou um viço novo: a febre de todas as tardinhas sumiu por um tempo e até brincava”.

Nossa parte favorita enchia-nos de dúvidas e … Conforme rezava a trama, certa noite, no meio do inverno, Bárbara ouviu ruídos no forro da casa. Foi até o quarto de Bella, no sótão. A cama estava vazia e a janela aberta. Um rastro de luar iluminava o beiral do telhado. No galho do abacateiro, que chegava até as calhas, estava a menina sentada, a cantar um trecho de Musette, da ópera de Puccini.Dona Barbara jurava que havia um violino a acompanhar o canto da menina. A boca esgalhada e os olhos vidrados, refletindo, como vagalumes, a luz da lua. Bella era, ainda por cima, sonâmbula. Não podiam acordá-la. Chamou Tio Maarten que trouxe o violoncelo e juntou-se à música. Como hipnotizada, Bella flutuava sobre as telhas e, juram eles, entrou voando pela janela. Deitou-se na cama. Um violino seguiu-a e ficou estanque, no ar, como se mãos de seda o segurassem. Tio Maarten continuou sua ária e foi saindo, levemente, do quarto. Bárbara cobriu a filha, bem de mansinho, com o acolchoado de penas. No outro dia bem cedo, a família acordaram-se com o choro de Bárbara: Bella havia partido para sempre. E estava tão bonita: até parecia mais gordinha e corada. O violino, porém, não estava mais com ela.

Titia baixou os olhos enquanto murmurava “Vater Unser, der Du bist im Himmel, geheiligt werde Dein Name…”[3] Ficamos quietas, olhando para sua devoção. Aí, sacudiu a cabeça, e falou : “É, há sempre um violino…” E saiu. Ficamos na cozinha, ouvindo Titia conversar com o jardineiro : touceiras de malva, bulbos de gladíolos, gerânios. E o violino?

 

Notas:

[1] Muito obrigada!

[2] Sexta feira Santa

[3] Pai nosso que estás no Céu…

Ilustração by Mausilinda

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