Marcas de uma ILHA

Sou Muluh, menina que a mãe abandonou aos três meses de idade. Ainda bem, porque meus Avós deram-me o melhor ninho para crescer, amar, ser amada e viver. Perdoei-os, contudo fatos contundentes traumatizam.

O que narro parece episódio da série American Horror Story, só que não , como falam hoje em dia. Na verdade, pode integrar o nosso (minhas duas irmãs, na época, pois as outras duas viriam alguns anos mais tarde) próprio seriado, infelizmente, a retratar o que  Nelson Rodrigues chamaria de a vida como ela é. Quantas crianças, como nós, sofrem consequências do não-amor , da invisibilidade e de atos de violência física e moral ? Por quê? Apenas pelo fato de terem sido geradas num impulso de satisfação física, completamente irracional ou límbica e, aí, que se danem esses bebês concebidos na irreverência .

Decido  iniciar—deixo a pré-história dessa confusão doída para outra vez—com uma longa viagem de trem—Maria-Fumaça—para uma cidade da fronteira. Íamos conhecer nossa quarta irmãzinha que nascera havia alguns meses. Vovó estava feliz pois adorava trens e apreciava os campos ondulantes da região do pampa. Como era viagem também noturna, vibrávamos com a antevisão do famosos boitatás: raios de luz que emergiam dos campos sob os quais havia profusão de ossos de gado extraviado, ou pela morte por doença ou pela velhice.

O trem cortava paisagens iluminadas pela lua e estrelas. Era um breu que a presença da dança do fogo fátuo (boitatá) encantava. Parecia mais paisagem de historinhas infantis e eu, de nariz grudado à janela da cabine, queria testemunhar cada compasso desses raiozinhos que o fundo da terra mandava para nos assombrar de beleza. Meu lencinho já molhara de tanto desembaçar o vidro que me colocava dentro da lenda, enquanto Vovô e Vovó dormiam. E os boitatás fincaram-se em minhas recordações.

Acordei com o aroma do café e dos bolinhos comprados em uma estação qualquer. Nem quis bolinho, preferi uma coxinha da galinha enfarofada que Vovó preparara para a viagem. E a cidade de minha irmãzinha mais nova aproximava-se. Estava louca para conhecê-la: diziam que tinha cabelinho escuro e os mais lindos olhos azuis, além de ser bem miudinha. Havia, além dela, minha irmã Marie que, após o longo tratamento e convalescença da grave difteria com o cuidado continuo da Oma, fora levada para aquelas lonjuras. No entanto, mesmo com profundo amor pelas maninhas, gostaria que a viagem de trem não terminasse. Os dois que nos aguardavam, invariavelmente, faziam Vovó e eu sofrer. Não bastava me abandonarem, queriam mais…

Estavam na estação. Após poucos abraços tímidos, alguém colocou num carrinho-de-mão a mala , o saco com presentes e roupinhas do nenê e o farnel de iguarias feitas em casa (doce de abóbora, figos em calda, conservas de pepinos, ambrosia) e uma variedade de linguiças da colônia. Seguimos a pé até a casa. Marie cruzou o portão e correu para nos abraçar e beijar. Puxou-nos pelas mãos até o quarto de Rosinha. Ela dormia na tranquilidade de seus três meses. E era o bebê mais lindo que já vira.

Nem lembro dos lugares da casa em que dormimos. Marie e eu repartimos uma caminha e matamos a saudade grandona sentida. O dia amanhecera azul. Eles decidiram que levariam Vovó e Vovô até a fazenda dos Taborga, seus amigos dos tempos de São Chico. Enquanto confraternizassem com os companheiros lá da selaria do Bisa Lud, eles e eu passearíamos de bote pelo rio que margeava a fazenda. Chorei muito e relutei como pude porque não confiava neles. Lembrava dos convites impostos para passear na garupa da bicicleta da mãe. Não tínhamos escolha. E, grudadas na garupa, ela, às gargalhadas, desenhava oitos na estrada até que, cansada de nossos gritos, soluços e choro, emborcava a bicicleta e caíamos no chão. Isso compunha os tristes fins de semana em que era obrigada a visitá-los. A lista de torturas é extensa, mas fica para outra ocasião.

Ele socou-me no bote, com força. Ela falava sobre os jacarés enormes e famintos que povoavam as partes escuras da água, cuja profundidade escondia dezenas de crianças desaparecidas.

Os dois remavam. A margem distanciava-se. Súbito, uma ilha de pedras, com águas rasas e esverdeadas. Bandos de pássaros revoavam. Encostaram, ali, o bote. “Podes dar uma decidinha para molhares os pés na aguinha fria. É muito bom. Teu pai e eu gostamos muito desse lugar”, falou ela com inusitada doçura. Não desci. “Quero voltar para minha Vovó”, gritava a chorar.

Tiraram-me, aos berros e à força, do barquinho e me plantaram entre pedras, pássaros bravios e água verdinha… E partiram na canoa. A ilha era um oásis de águas rasas circundada de profundidade turva. Quantos jacarés escondiam-se ali, tão pertinho de mim?

Não sobravam forças para gritar por socorro e nem adiantava : os dois haviam sumido e ninguém habitava aquelas bandas. Os pássaros, quero-queros, cada vez davam mais rasantes sobre minha cabeça . Consegui arrancar um galho , preso entre as pedras, para afugentá-los. Com isso, o bando crescia e a vontade de me bicarem tornava-se muito real. Começava o sol a desaparecer. A brisa tornara-se vento.

Morreria ali, entre bicadas dos pássaros furiosos que, descuidadamente, me empurrariam para os esfomeados jacarés . Chorava em silencio, com fome, sede e frio, com pena de mim e de Vovó. Não entendia como eles podiam ser tão maus. Lembrei do Santo Anjo da Guarda. Na verdade, ele esquecera-se de me proteger. As pernas doíam. Nem podia me sentar nas pedras porque tinha medo de uma cistite. Chegara a um cansaço extremo.

Eis que, de longe, escutei relinchos altos. Ou seriam gargalhadas? O bote retornava. Encostaram-no na ilha e, entre risadas continuas, me recolheram. Avisaram, em tom agressivo, “E NADA de contar para aquela vaca“—minha Vovó—“essa história do rio e dos quero-queros! Se falares qualquer coisa, virás para cá de novo…e de noite!“

Lembro de , finalmente, voltar àquela casa que nada tinha a ver comigo. Estava tão fatigada que perdera a fome. Vovó deu-me um banho de caneca e colocou-me na caminha. Queria voltar para o meu lar. Pedi a Vovô que pegássemos o trem e fôssemos embora. Quando Vovó perguntou por que tanta pressa, repetia as palavras medo, água, quero-queros. E isso bastou para meus Avós reconstruírem o episódio. Como diria Bisa Lud , o arranca-rabo foi terrível. Ela (a nora), como de costume, posou de mártir dolorosa para ele (o filho), enquanto Vovó (mãe dele) consolidava sua fama de quadrúpede infame. Por quê?

Voltamos no próximo trem. E a viagem foi interminável. Vovô lembrava que avisara muito bem que não deveríamos ter feito essa empreitada, uma vez que aqueles dois nos trariam apenas tristeza. Tentava, com olhar bondoso e palavras confortantes, me aliviar do peso da maldade.

Os boitatás passavam sem que os víssemos. Vovó não entendia como um pai e uma mãe podem não amar os filhos que sequer pediram para nascer. Eu não alcançava ainda o significado dessas palavras. Sabia, contudo, que aqueles outros dois me repeliam. Não os conhecia direito, pois, ao longo de quase uma década, pouco os vira.

Pássaros na ilhaHoje, após sessões de terapia, temo águas desconhecidas e, apesar de gostar de riachos e da beira do mar, falta-me coragem de enfrentar água em que, talvez, não dê pé. Nem mesmo para aprender a nadar…

Ilustração by Mausilinda

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