O Homem do Retrato

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Há muitos e muitos anos, havia um casal que não apreciava muito crianças. Apesar disso, tinham, naqueles dias, quatro filhas, Muluh, Marie, Monique e Rosa. Moravam no topo de um morro, em casa antiga cercada de árvores, cabritas, galinhas—inclusive as que repetiam tô-fraco-tô-fraco sem parar . Nos fundos, havia um galpão que, durante uns anos, abrigou um polonês refugiado da 2ª Guerra Mundial.

Os dois quartos eram espaçosos , aliás, no do casal, existia  espaço demarcado para abrigar móveis e cama de criança. Ali, a caçula das meninas dormira por alguns meses. Além disso, havia sala de estar conjugada a de jantar, escritório, cozinha ampla e uma área com grades de ferro decorado por centenas de figuras em §. Saia-se da cozinha e, um degrau abaixo, podiam desfrutar desse lugar pelo qual árvores, pássaros, sons de vento e bicharada adentravam. Era local para ocasionais almoços de verão—a esposa dizia-se por demais adoentada para as lides domésticas—pois ,sempre, corria uma brisa agradável que soprava solta pelos arredondados floreios das grades. No canto esquerdo, ficava o banheiro e, no direito, havia um quarto completo com cama de solteiro.

Em salteados finais de semana , mandavam buscar Muluh, a menina que os Avós receberam de presente. A alegria das irmãs esbanjava-se em beijos, abraços, brincadeiras e conversas. A menor tinha apenas dois anos e participava como o bebê-boneca de uma delas, geralmente de Marie.

As meninas, especialmente Marie, temiam muito os pais. Os castigos eram fortes e muitos. O casal divertia-se com as conseqüências de suas estratégias de pseudo (?) tortura nas três meninas mais velhas ( idades 7, 6 e 5). Eram mestres em inventividade malvada. E, nesse era uma vez, narramos uma delas. Outras tantas ficam para depois…

Era sábado , pelas quatro da tarde. Os dois haviam dormido e, antes, para garantir esse sono, ele trancara, por fora, as três meninas em seu escritório. Se gritassem, chorassem, batessem na porta o que as aguardaria era terrível. Reforçava para Muluh (7 anos) que se contasse qualquer coisa que acontecesse naquela casa para a vaca velha ( mãe dele) , nunca mais voltaria para a casa de seus Avós.

Eis que, então, abriram a porta. As meninas estavam loucas de sede, medo, xixi contido e saído. Correram para o banheiro e para a moringa de água, na cozinha.

Ela chamou-as de volta e sussurrou , com medo, “Enquanto dormíamos, alguém entrou no quarto de vocês. Acho que foi o homem daquele retrato na parede. Espiei pelo buraco da fechadura e vi-o deitado na cama de vocês. A Marie entra primeiro e tenta tirá-lo de lá. SEM GRITARIA !

E, de chofre, empurrou a guriazinha para dentro do quarto escuro. Marie emudeceu lá dentro. Silêncio completo. Minutos passavam e sequer um suspiro. As outras duas tremiam só de pensar que Marie tivesse morrido de pavor. Além da dor da expectativa de serem as próximas vitimas.

Ela fez uma fresta na porta e puxou Marie—fria, branca e imóvel—para fora. Nem assegurou-se de que a menina estava viva e, imediatamente, socou Monique (5 anos) pela fresta. Um fio de lã da blusinha de tricô—feita pela outra avó—ficou preso na grande fechadura.“Azar!“ salivou ela, com raiva.

A barulheira foi grande. Com suas botinhas ortopédicas, Monique chutava, sem trégua, porta, armário, parede e janela. E gritava por socorro, pela sua querida avó que falecera, pela policia. Berrava tão alto que o casal que não gostava de crianças temeu que alguém pudesse ouvir o banzé e chegar lá para saber o que acontecia. Furiosos, os dois jogaram a menina para a sala.

Agora é tua vez, Muluh! Aqui não tem essa coisa de queridinha da Vovó! Vai lá para dentro, sim ! E não tem choro! Vamos trancar essa porta para que te acertes com o homem do retrato. O homem já deve ter virado a bicho de tanta fita e barulho!

Ele, o tal pai, falou assim com a menina que, devido aos frequentes episódios traumáticos a que era submetida, chorava quando tinha que visitá-los e deixar sua casa tranqüila e florida.

O quarto continuava iluminado apenas por uma vela pequena, junto à janela trancada por uma barra de ferro. Passou as mãos nos olhos para enxergar melhor. Havia um homem de botas pesadas, calças esverdeadas, casaco escuro e um chapéu a encobrir-lhe a cabeça. Estava morto, parecia pelo menos. Chegou perto apesar do terror. Lágrimas lavavam seu rosto. Secou-as com o avental. De súbito uma força subiu-lhe do coração à cabeça. Pensava nos seus Avós e nesses que a jogaram no quarto escuro com um morto. E a coragem, misturada a uma raiva sem medida, levou-a até a vassoura, perto da janela. Já nem era apenas rancor: ódio insuflava sua vontade. Tomou a vassoura pesada e, com ela em punho, iniciou a golpear a tal pessoa. Vassourava de olhos fechados e dentes à mostra. Após uma dezena de pancadas, quebrou-se o cabo da vassoura e a força da vingança. Muluh batera na criatura sobre a cama como gostaria de poder se vingar desses que só a queriam para alimentar seu estoque de gargalhadas. Foi então que olhou para a cama: eram roupas, botas, chapéu e duas vassouras velhas que lhe serviam de esqueleto.

Como Tarzan, nas matinês de domingo à tarde, soltou os pulmões. “ Feioooooos! Queriam nos matar de medo! Nem tinha homem aqui! Vocês inventaram essa coisa feia! Deus vai castigar vocês dois! Vai SIM!“

Abriram a porta. Muluh suava muito e não tinha fôlego. As quatro meninas choravam e riam abraçadas. Muluh queria ir embora. Ele, até, estava pronto para levá-la de volta em sua bicicleta. Marie, Monique e Rosinha pediam que ela ficasse. O casal resolveu que domingo, depois do café, ele deixaria Muluh em casa, desde que prometesse , pela vida dos Avós, segredo completo sobre o episódio do tal homem de mentirinha.

Muluh, Marie, Monique e Rosinha resistiram. Traumas, entretanto, ficaram a assombrar, várias vezes, suas vidas.

Ilustração by Mausilinda

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