O guarda-chuva e um machado

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E na terra do Sempre—bonita era a do Nunca, de Peter Pan e seus amiguinhos—tranquilidade não havia. Sempre era um vórtice de angústia para inocentes que não pediram para nascer.

O casal, parecia, escolhera como passatempo favorito selecionar atividades lúgubres para finais de semana em que Muluh era obrigada a  visitá-los. Atividades hilárias apenas para os dois e , ainda que traumatizassem as meninas, sua diversão superava tudo. Afinal, nem queriam essas chateações que precisavam banho e comida e que, para tornar tudo pior, choravam de fome, ficavam doentes, tropeçavam, queriam brincar só para sujar a roupa e precisar de mais um banho. A única vantagem em tê-las estava justamente na fonte de risadas sádicas que as menininhas lhes proporcionavam.

Era um domingo de verão. Após o café da manhã, com pão francês que a mãe fatiava ao comprido (era muito esforço serrá-lo em tamanho normal, mesmo que as meninas precisassem usar as duas mãozinhas para segurar seus preguiçosos pedaços de pão dormido) , na verdade, toras de pão besuntado de schmier colonial sem manteiga (só passava manteiga em seus egoístas pãezinhos especiais, bem quentinhos). Não coava o leite, fervido várias vezes, do qual grossas camadas de nata e bolhas de gordura emergiam nas canequinhas. Choravam implorando para que passasse o tal café com leite pela peneira de metal, enquanto ela, indiferente aos apelos, sorvia sua mistura tentadora de Nescafé e leite condensado diluídos em água. Geralmente, alguém vomitava de repugnância, mas, aí, ela com aquele olhar único, servia uma nova dose, mais fria e graxenta. Rosinha e Marie ensinaram às irmãs o grande truque: despejar a nauseante bebida pelo buraco da caixa de gordura da cozinha. Era somente aguardar a saída dela da mesa e, pronto, lá se iam películas espessas de nata, bolhas gordurentas e a calda fria de café, leite com muitas colheradas de açúcar cristal.

Após essa desmazelada refeição, pai e mãe iniciaram longa sessão de cochichos. Olhavam para as meninas e lançavam-lhes fingidos meneios de cabeça, supostamente consternados.

O almoço foi qualquer coisa da pensão da Dona Odila. Preocupação com o que aconteceria superava, nas três irmãs , qualquer rasgo de fome; Rosinha tinha apenas três anos e ainda não conseguia captar o peso das nuvens que se formavam na casa. Seus estômagos padeciam com o farfalhar de borboletas noturnas que neles penetravam atraídas pela intensa tensão.  As irmãs estavam com medo do medo que sentiriam logo que lhes revelassem o motivo de sussurros tão persistentes.

E a hora chegou. Ela conduziu Muluh, Marie e Monique até a área gradeada em verde. Apontou, a seguir, para o velho cepo de cortar lenha com o grande machado ali fincado. E comunicou às guriazinhas, entre teatrais soluços de sofrimento, “Hoje, assim que vocês saírem para a matinê”…

Não queremos ir na matinê! Nem tem desenho! ” retrucou Marie com firmeza.

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Tá passando Tico-Tico no Fubá! Não tem graça!”, continuou Muluh.

Tá muito calor!” finalizou Monique.

A mãe deu um beliscão bem torcido, com suas unhas compridas e fininhas, nas meninas. Prosseguiu com a frase que ficou, até os dias atuais, na mente daquelas crianças rejeitadas: “Hoje, assim que vocês saírem , o pai de vocês vai me matar com aquele machado, ali! Vocês tem que sair porque haverá muito sangue. Vocês não devem ver isso! Está quase na hora! Vão se arrumar e peguem o guarda-chuva porque o sol está forte!

Guarda-chuva é para chuva. No sol, é sombrinha!”, teimou Marie. E mais um beliscão forte.

Rosa foi largada no berço. Suas irmãs, então, colocaram vestidos iguais—o tecido rosa com bolinhas brancas fora presente do outro avô—confeccionados pela Avó paterna—a que recebera Muluh aos três meses de idade—a partir de um modelo do Burda. Receberam um guarda-chuva enorme e a ordem de “Chega, vão embora logo! O pai de vocês já está afiando o machado para não doer muito quando cortar fora minha cabeça. Adeeeeeeeuuuuus!”

E a mulher repetia, como disco estragado que o marido decepar-lhe-ia a cabeça e que aquela seria a última vez que a veriam. Por dentro, bem dentro, havia um suspiro de alivio. Isso era pecado. Ninguém podia manifestar conforto com o desaparecimento de alguém, ainda que essa pessoa não fosse bondosa. Monique, Marie e Muluh desceram a escada encravada na laje do morro ao som do coro “O pai vai me matar, agora. O pai vai me matar, agora. O pai vai me matar, agora.” Enquanto o homem brandia a machadinha e gargalhava.

Ao tocarem o pó da estrada, começaram as irmãs, escondidas sob o monstruoso guarda-chuva. num dia de sol a pino, a berrar, “SOCORRO! SOCORRO! O pai vai matar a mãe! SOCORRO! SOCORRO! O pai vai matar a mãe! Vai cortar a cabeça dela com o machado! Vai cortar a cabeça dela com o machado!”

Os vizinhos foram , todos, para os portões. E as meninas suplicavam que as ajudassem. Pediam que, pelo amor de Jesus, impedissem esse crime.

São loucos! Como podem afligir desse modo as meninas! São uns monstros!” gritavam as mulheres.

As três irmãzinhas, idades 8, 7 e 6, tremiam sob a grande mariposa preta. Antes do cinema—ordens deviam ser cumpridas sob  pena de flagelantes ameaças—deram uma chegada na serenidade da casa da Avó e, perguntadas por que estavam cobertas de lágrimas, Muluh contou , apenas parcialmente. a história e pediu que suas irmãs ficassem com ela até segunda-feira. Os Avós entreolharam-se , deram um dinheirinho para a pipoca, abraçaram as netas e concordaram.

O filme foi feio e complicado demais para quem já levava vida quase trágica. Voltaram, de mãos dadas, para o lar dos Avós. Os pais, pensaram as três, que se entendessem: elas seriam felizes naquele agora, doce e carinhoso.

Será que a gente ainda tem aquela mãe? ”, preocupou-se Marie.

Pessoas sem cabeça podem entrar no Céu? ”, indagou Monique.

Acho que os dois morreram! Agora vocês ficarão, aqui, com Vovó para sempre! ”, completou Muluh.

Um dos vizinhos, meio ligado ao sobrenatural, jurou que vira raios de luz partindo daquelas crianças sofridas. A luz era divina e indicava que suas vidas mudariam : ficariam aos cuidados de quem as amava. Era coisa do inominável maltratar , constantemente, crianças pequenas que só precisavam de amor.

Dona Odila, da pensão, testemunhou para a Avó que , naquele malfadado dia, as meninas receberam a Graça celestial em forma de raios de luz. Ela– benzia-se repetidamente–mesmo vira aquela luz emanando das crianças. Em meio a tamanha injustiça, as crianças receberam a bênção da luminosidade…Um milagre!

 

Ilustrações by Mausilinda

 

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