Fogo arrasa tudo

Baile da Neves final

O contexto da narrativa a seguir situa-se na longínqua década de 1950, em uma cidade no sul do Brasil. Telefones eram poucos. Apitos de fábricas e dos trens de ferro marcavam horas do cotidiano dos habitantes: a chegada do Caxiense ; o Operário, de manhã cedo, levava trabalhadores e estudantes a Porto Alegre e os trazia de volta à noitinha;o Noturno, ou Santa Maria, transportava gente que viajaria para as cidades da Fronteira ou , em Santa Maria, faria baldeação—como eram chamadas as conexões de hoje—para seguir, em outra locomotiva, em direção a outros estados, especialmente, São Paulo. Havia, além disso, o pontual sino da capela das Carmelitas a chamar para missas, desde às seis da manhã até às seis da tardinha. Durante a noite e pelas madrugadas , o guarda-noturno patrulhava as ruas e seus apitos, também, ocorriam em intervalos iguais.

As ruas eram tranquilas e bem cuidadas. Explico: o progresso do plástico não chegara para inundar ruas e calçadas; as pessoas compravam o necessário e os apelos ao supérfluo restringiam-se a propagandas em dois jornais e duas ou três revistas que atingiam apenas aos acostumados à leitura. A televisão era sonho, infelizmente, nem tão distante. Os cidadãos daquela cidade—bem como os de inúmeras outras—escutavam no rádio o Repórter Esso, através do qual sabiam o que acontecera no mundo há dois ou três dias e ouviam as manchetes locais, especialmente, notícias policiais, desastres, ações governamentais e esportes. As radionovelas , principalmente as das 8 e 9 horas da noite cativavam a audiência. O aparelho de rádio, a válvulas, colocado em ponto estratégico da sala, permitia trabalhos manuais, tarefas domésticas e voos da imaginação enquanto situações difíceis e/ou engraçadas adentravam a mente dos ouvintes.

 

O verão fazia dos adultos seres muito preguiçosos : só queriam saber de se abanar e de comentar como estava quente. Seus colegas de opinião, grudados às cadeiras, entoavam cantilenas sobre a falta de uma brisa sequer no mormaço sem fim. Outros discutiam previsões do tempo ouvidas no rádio, de acordo com a estação meteorológica de Antares e com o Instituto Coussirat Araújo, de Porto Alegre. Alguns desfiavam detalhes secretos de causos sobre mortos, viúvos e viúvas, ou novidades sobre idosos recentemente casados, ou amasiados, com alguma jovem que buscaram na Colônia ou que tiraram da Zona—área de luzes vermelhas destinada às mulheres da vida. Sobrava, ainda, tempo para lambancear sobre filhos bastardos—os mais idosos aplicavam-lhes o termo filhos da macega –e sobre quem eram os clientes dessas casas suspeitas, ou tocas da onça, como as chamava Vovô, lá do outro lado da Faixa Federal. Vira e mexe, largavam risadas sobre aquele baile…

O malfadado grande fato ocorrera num salão, na zona proibida, e costumava ser revisitado e engordado conforme a regra de quem conta um conto aumenta um ponto da vizinhança , em suas tranças sobre ventos e eventos de personagens da cidade. Era o Baile das Neves. A noitada acontecera num dos salões grenás das chinas—assim se referiam a elas—de roupas decotadas e justas de cetim, unhas longas e vermelhas, cabelos pretos, ou oxigenados, bem crespos e compridos, muito ruge nas faces pálidas, batom sangue nos lábios carnudos sobre os dentes podres, e lápis preto em pintas pelo rosto, nas sobrancelhas angulosas e nos contornos tortos dos olhos cansados. Essa era nossa—meninas entre oito e dez anos de idade—imagem delas através das descrições dos adultos.

E elas nos seduziam, com a mesma força de bruxas e fadas, pelo bizarro. Uma menina de um outro bairro contara à prima da prima de alguém de nossa turma que queria ser uma delas quando crescesse, porque eram tão lindas, sempre pintadas, prontas para o Carnaval. Falara que atravessaria a Faixa e nem levaria nada: compraria tudo novo nas lojas delas com as moedas de seu cofre da Caixa. Fugiria porque seus pais queriam que fosse normalista.

Nem minhas irmãs nem eu ousávamos verbalizar pensamentos sobre essas sirenas—Titia, outra vez—que conseguiam atrair otários. Às vezes, à noite, cruzávamos de carro, retornando com parentes de algum aniversário, geralmente em Novo Hamburgo, pela Zona. Esticávamos nosso olhar e virávamos o pescoço para acompanhar detalhes que nos auxiliariam a compor uma figura mais nítida daquilo que Vovô chamava de antros de perdição: as luzes vermelhas pelas portas e janelas e muito movimento na rua principal.

Uma tarde por semana, diziam, as mulheres da vida vinham ao centro. Cada mulher muito pintada que passasse pela nossa janela era uma delas, e ficávamos acompanhando-a até dobrar a esquina. Queríamos saber mais sobre elas, entretanto era impensável qualquer indagação, nem mesmo a Tia Ella. Ficaria apavorada com a pergunta e, sobretudo, com o que talvez soubéssemos sobre esse tema impróprio para crianças.

Bem, mas o Baile das Neves acontecera havia alguns verões e entrara para a história local. Os donos do salão e as mulheres que ali trabalhavam haviam enfeitado tudo com uma tonelada de algodão, numa imitação de neve. E era algodão sobre o oleado estampado de flores fenecidas nas mesas; sobre os crepons vermelhos que cobriam as lâmpadas pendentes do teto por fios elétricos engordados por excreções de gerações e gerações de moscas varejeiras; pelas cortinas de contas de vidro nas portas internas; pelas janelas e postigos que davam para a rua poeirenta; pelas palhas dos assentos das cadeiras engorduradas; pelo teto, em bandôs iguais aos das tendas dos haréns nos filmes das matinês; pelas centenas de folhas de coqueiros trazidas do Arroio da Manteiga; pelo palco de onde os músicos do regional tentavam espalhar tangos e boleros.

Pelas bordas da pista de danças de chão batido, a neve enredava-se nas rachaduras dos pés em saltos altos e por algumas esporas. E todos fumando muito, desde os músicos e garçons até as mulheres, com suas piteiras longas, e seus companheiros furtivos, com palheiros. E dança, risadas, bebedeira, jogatina e a atracação seguiam noite a dentro.

De repente, num dos quartinhos dos fundos, gritaram por socorro. No meio da zoeira total, só foram perceber que aquela fumaça não vinha apenas dos cigarros. Era um incêndio que já se alastrara pelo salão, engolindo algodão, crepons, palhas e as parte das roupas dos homens e mulheres do Baile das Neves.

Os bombeiros pouco puderam fazer pois, quando chegaram ao local, o telhado ruía sobre brasas do que sobrara do salão. Lá fora, mulheres eram levadas ao hospital para curativos, enquanto os homens fugiam, num salve-se quem puder, segundo Titia, para o outro lado da Faixa Federal.

No outro dia, no Café Central, frequentadores pontuais explicavam a amigos as gazes com mercúrio cromo, pomada e esparadrapo: tombos, atropelamentos, ataques de cães de rua ou coices de um animal da carroça de algum açougueiro ou padeiro, na madrugada. O mais difícil fora chegar em casa depois daquele serão na fábrica. Titia afirmava que as esposas apenas fingiram que acreditaram na história complicada. Alguns se cotizaram e conseguiram pagar para que o sinistro das Neves não aparecesse no Pau Bate, jornalzinho marrom da época. Entretanto, na calçada de nossa rua, todos sabiam quem tinha bailado lá, no meio daquele inferno de algodão.

Seu Ercílio, de pijama listrado e chinelos de couro fechados sobre os dedos, nosso vizinho da frente, ria e meneava a cabeça ao relembrar daquela confusão. Em seguida, como que para provocar novo rumo às conversas, apontava para o fim da rua e dizia: “Hoje, à tarde, estava carregado para os lados do Buraco da Fumaça. É água, na certa.”

Alguns anos mais tarde, seu Ercílio entrou para nossos mistérios ligados ao universo da riqueza de significado das palavras. O nome da estranha doença que o acometera era fogo selvagem. Fogo como o que derreteu o tal baile? Minhas irmãs e eu divagávamos, deitadas nos divãs do sótão, na hora do estudo, sobre os porquês de ‘fogo’ e de ‘selvagem’, sempre lembrando  das neves de algodão e daquelas labaredas no rótulo da garrafa de Fogo Paulista que Titia guardava, entre os livros de Tio Maarten, no armário de ébano do gabinete, logo à entrada de sua casa. Titia, como sempre, tomou a iniciativa, em almoço de domingo, à hora da sobremesa de arroz de leite, para comentar tal enfermidade a partir de leituras na Enciclopédia Jackson e na revista Vamos Ler.

O nome legítimo desse terrível mal é pênfigo foliáceo e nem mesmo os mais notáveis especialistas sabem qual sua etiologia. Os sintomas da moléstia começam por bolhas no tórax que vão, impassivelmente, se alastrando e invadindo todo o corpo do indivíduo, até que toda a pele pareça uma grande queimadura. E as bolhas não param nunca de sair. Quando uma parece que vai cicatrizar, mais meia dúzia de pequenos vulcões aparecem em outros pontos. E as pústulas, como na varíola preta, estão lá para sempre. O nome ‘fogo selvagem’ vem , não só das arranhaduras e feridas, mas da febre eterna. A pessoa acaba consumida pela doença e pelo estado geral de depauperação física.”

Vovó logo empurrou a tigelinha de vidro rosa com o doce salpicado de canela e recolheu a jarra de limonada da mesa, enquanto Titia serviu-se de uma segunda dose. Nós nos olhávamos e depois examinávamos o doce: a crosta de canela com açúcar, que nos atraíra inicialmente, perdera seu apelo, parecia uma casca de ferida!

E, em muitas outras ocasiões, ouviríamos descrições das chagas, dores, ardências , queimações e tratamentos—um , inclusive , com piche—do vizinho, tão bondoso e calmo que passava muitas tardes à janela, com sua mulher, a contemplar o movimento . Numa noite de minuano, deixou-se consumir pela última labareda daquele fogo fundo.

Titia, debruçada sobre sua almofada, no janelão da frente de nossa casa—defronte às janelas tristes de seu Ercílio—matutou, em voz profética : “O mundo vai acabar e será , ouçam bem, por combustão. Chamas nunca vistas, ou sentidas, consumirão tudo e todos…

Ficamos perdidas entre as possibilidades da palavra fogo: a da bebida de queimar a garganta; a de doença, como a que abrasou em chagas o corpo de seu Ercílio; a das labaredas altas do Baile das Neves. E, agora, mais a do fim de tudo…

 

Nota: Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência.

Ilustração by Mausilinda

One thought on “Fogo arrasa tudo

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s