FAXINA DA RAIVA

faxina remodelada 2

 

Casamento desmoronara há um mês. Ou seria, uma semana? Vassoura golpeava assoalho. Destruía teias de aranha gordas cuja existência ignorara em tempos de felicidade. Algumas, ali, misturando-se a seus cabelos. Como não as percebera? E, dele que te dele, vassouradas.
Em meio à bruma de poeira, recordava. Tulipas e amarílis vermelhas, ao sair do trabalho de professora, à noite, pelo Dia dos Namorados… E, assim, desconfiou que seu marido, o Jolmar, tinha outra mulher no pedaço. Suspeita transforma-se em certeza com a pergunta da amiga–“Gostaste das flores vermelhas e fresquinhas que, ontem, teu marido comprou para ti, pelo Dia dos Namorados?”–a respeito do orvalhado  ramalhete com o qual ela vira Jol—seu apelido—pelas oito da manhã de muito frio.
Iniciou o trabalho de juntar peças esquecidas do quebra-cabeça. Lembrou de como fora idiota ao limpar o carro e encontrar notinhas de supermercado com registros de compras de artigos que nunca vira em sua casa. Acreditara—que ódio!—na explicação do safado: comprara aqueles produtos para bebês,coisas como Nestogeno, fraldas, lenços umedecidos, todos para a coitadinha funcionária de limpeza da firma que ficara viúva e com duas criancinhas para sustentar. Mais fúria ainda, quando recordou do beijo que depositou, comovida, nos lábios—que nojo—do mulherengo.
E passava por sua cabeça a novela barata daquela tarde em que conseguira forçar uma amiga do salafra a dar-lhe a ficha completa da fulana, inclusive telefone e endereço. A informante, com dó da traída—ou querendo assistir ao barraco total—levou-a, em seu carro, até à comunidade em que a outra vivia. Encontrou-a de botas de verniz com cano alto, meia arrastão e macacãozinho de lycra, escorada à porta da boate Desperados ( só esses teriam coragem de entrar naquela espelunca), acertando preço de programa com alguém bem parecido com o compadre de Jolmar.

Era , olhando bem, o próprio: pai de três menininhas e marido modelo—conforme descrições melosas de sua comadre. Fez, por isso, questão de cumprimentá-lo.
A dançarina virou estátua , quando a traída arregaçou as mangas e iniciou a gritar um elenco de palavras nada elogiosas, dirigidas à mulher-dama. A informante precisou conter sua amiga, pronta para usar o ancinho encostado à cerca de arame farpado, pertinho do fusca.

Tudo terminara , ali. Jolmar tentou passar-lhe a conversa vazia e doce de repugnar, comum dos traidores: não tinha culpa, a fulana da boate insinuara-se para ele; fora naquela balada para acompanhar seu chefe; nada acontecera, além de…um beijo; nada havia entre ele e a tal dançarina das meias arrastão; somente tinha olhos e coração para ela, sua amada esposa.

Bufava de ira e nojo. Precisava limpar tudo. Finalmente, chegou aos estofados da salinha. Aí empunhou a vassoura e espantou deles marcas do homem que ali deitara, ou sentara, por tanto tempo. Bateu e bateu e bateu até perder o fôlego.

Os móveis choravam poeira, quando a moça recobrou a raiva e retomou os açoites.

Cansada, sentou-se, por uns momentos, no banquinho sobre o qual o fulaninho escorava seus pés descalços tomados de frieiras, cujo odor nunca a incomodara antes. Apaixonada a ponto de anular até mesmo o próprio olfato. Chegara até a lavá-los e a tratar suas feridas purulentas.

Como fora cega! Aguçou-se, novamente, sua gana de limpar sua casa e sua vida. Lá veio a vassoura outra vez. Tirara as cortinas para lavar. Quem sabe, melhor seria tê-las jogado no lixo ou queimado na churrasqueira: cheiravam a cigarro. Dele, claro.
Com a palha da vassoura penteou as sanefas largas e fundas. Serviço quase concluído, subiu no tal banquinho para confirmar a eficiência da varredura no porta-cortina de madeira. Só mais aquele cantinho da esquerda. Eis que as tramas de piaçava provocam uma chuva de Jontex coloridas, musicais e com texturas especiais que , raivosamente, atapetam parte da sala.
Examinou-as: o cafajeste , provavelmente, comprara tudo na viagem a negócios que fizera a Rivera. “Negócios, sim, conta outra”, falava enquanto juntava os preservativos. Nos últimos tempos, naquelas conversas DR, Jol confidenciara-lhe que o cardiologista o havia proibido de ter relações íntimas porque logo estaria na mesa de cirurgia para pontes de safena e, talvez, um transplante. E ela chorara tanto em seu ombro e, depois, no seu travesseiro cheio de insônia… Acreditara.
Colocou as Jontex em várias sacolinhas coloridas . Lavou as mãos com sabão amarelo e, depois, álcool. Ligou o computador e a impressora e, então, sorrindo , digitou anúncios. Recortou-os com a tesoura de picotar. Preparou uma espécie de kit: caixa com tachinhas, saquinhos de sacolé com três camisinhas em cada, vinte anúncios de prestação de serviços privé. Tirou o carro da garagem apertada e , decidida, pregou os kits em lugares estratégicos: saída de fabriquetas, paradas de ônibus, estações do metrô, entrada de bares duvidosos.
Voltou para casa e ria muito ao imaginar a cara da fulaninha ao receber tais telefonemas para marcar programas. Era óbvio que, com aqueles dados apelativos para a gatona manhosa e mais as três camisinhas estratégicas, os bobocas de plantão enlouqueceriam para tentar sua vez com a dançarina de poste.

A raiva passara e, em sua casa, perfumada de flores e ramos de eucalipto, deliciava-se com a novela da nove, uma Coca-Cola geladinha e um pedaço de pizza.

 

Qualquer semelhança com fatos reais é  mera coincidencia .

Ilustração by Mausilinda.

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