Feridas cicatrizam, mesmo?

 

A história de Justina acontece no contexto dos anos 1950. As pessoas usavam o serviço de Correio, com funcionários a distribuir, nos devidos endereços, qualquer tipo de comunicação escrita.  E as pessoas trocavam suas muitíssimas cartas (de amor, amizade ou negócios), redigidas à mão ou em máquinas de escrever. Havia os telegramas para assuntos urgentes. Muitas casas possuíam telefones fixos destinados, basicamente, a horas de necessidade de contato rápido. Já se viajava de avião, mas, quem tivesse medo de voar, podia escolher as confortáveis cabines dos trens-leito ou de navios.

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Justina perdoara as traições do marido. Chorara demais a cada nova suspeita de mais uma aprontação do cônjuge. Sempre descobrira o essencial através de indícios que homens ignoravam: fotos caídas dentro de botas, roupas sumidas, perfume desconhecido, marcas sutis de batom , contas do telefone fixo, caixa de correio com cartões de hotéis a agradecer a preferência do Sr e Sra. Postreso. Lugares que Justina desconhecia, contudo, calava-se. Relevara por fora:  depositou no cofre da memória cada peça que se enquadrava nos quebra-cabeças das repetidas enrabichações de seu marido.

Sr. Postreso, décadas após esses arroubos de homem que se via irresistível, mostrava-se marido fiel e dedicado. Muitas vezes, tentava entender raivas repentinas da mulher. Especialmente, quando mencionava as viagens a negócios dos “ bons tempos”. Justina odiava tais comentários e silenciava, carrancuda. Tornara-se fria. Jamais iniciava qualquer aproximação mais chegada ao marido. E ele derretia-se, num crescendo, por ela.

Num abril, dia do aniversário de casamento, Sr. Postreso voltou de sua empresa mais cedo, abraçou a mulher com força, beijou-lhe a boca insensível e falou:

“Justina, meu amor, adivinha o que tenho aqui? Adivinha só? Duas passagens para Buenos Aires, com hotel Alvear e tudo a que tens direito! Assim, podemos reviver aqueles dias inesquecíveis…Lembras, amor?”

Justina livrou-se dos braços de polvo do marido. Soluços sacudiam-lhe o corpo. Hotel Alvear e dias encantados?  Quando?

Marido jurava que vivia, apenas com ela, plena felicidade. Justina trancou-se no quarto e sapateou sobre si mesma. Lavou o rosto. Passou um blush suave nas faces e acentuou, com rímel, seus cílios claros. Retirou os valores do cofre e jogou-os em sua bolsa. Passou por Postreso e arrancou-lhe das mãos as passagens com destino a sua liberdade tardia. Nem deu tempo de o homem falar qualquer coisa. Do sofá, Postreso ouviu o carro arrancar e tomar a estrada.

Agora, sim, pensava Justina, suas feridas iniciavam processo de cicatrização. Ligou o rádio do carro e,  em volume máximo, um tango de Piazzola inflava o ambiente. Sabia que poderia conviver com as marcas das feridas. Lamentava ter fingido ser quem não era por mais de vinte anos. Por que escondera dele os machucados infectados que causava com suas escapadas? Libertava-se! E o tango era a música que a transportava ao futuro. Depois era, isso mesmo, depois: importava o agora. Depois é depois, pronto.

Iria conhecer aquele hotel …

 

Foto by Mausilinda.

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