O OURIVES, FRAU JUNGFREUND E A CAIXA

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Talvez vocês não lembrem, ou ainda não tenham lido, a história da foto do 1º aninho do Vovô Antonio. Tentarei resumir. Foi num dia quente , início de fevereiro, que Frau Jungfreund aproveitou a chegada de um fotógrafo da capital para perpetuar a imagem de seu filho caçula. Após a sesta, à tarde, banhou o menino e vestiu-o. Aprumou-se, com esmero, colocou o menino no carrinho alto e lá se foi.

O estúdio  ficava junto à melhor joalheria da cidadezinha e bem perto do casarão dos Jungfreund. Entrou na loja e cumprimentou o joalheiro que, naquele exato momento, iniciava o processo de derretimento de duas largas alianças que uma viúva recente  trouxera-lhe para que as derretesse: desejava  que as transformasse  em um par de brincos nada delicado—fora dos padrões da época para senhoras distintas—com pedras coloridas advindas das muitas abotoaduras do falecido. Frau Jungfreund pediu-lhe desculpas por interrompê-lo no delicado trabalho. Explicou que tinha hora marcada com o retratista. O joalheiro , então, confidenciou-lhe que não conseguia entender o que levaria a viúva a derreter o símbolo de uma união sagrada e, ainda por cima, tirá-lo do divino para jogá-lo no vulgar. Pior ainda, a futura dona desses enfeites espalhafatosos estaria, com isso—dizia o pessoal do Clube de Canto—a clamar vingança por traição.  Além disso, encomendara vestidos nada modestos. O ourives expressou sua perplexidade frente a tais atitudes. Naquele momento, o fotógrafo chamou a discreta mamãe e seu bebê  para retratá-lo sobre o falso ninho de cegonhas. Depois de várias tentativas, finalmente, a foto perfeita. O artista prometeu entregá-la em uma semana.

A senhora despediu-se dos dois profissionais. Contudo, levou em sua mente a pergunta: “Por que Grete Funcksnell, a viúva, derreteria as alianças e usaria roupas mundanas?”

No Domingo de Ramos (uma semana antes da Páscoa), após o Culto, houve uma confraternização que culminaria com uma rifa. As mulheres reuniram-se no salão da Casa Paroquial. Havia biscoitinhos. Spriztbier[1], espetinhos de pepino em conserva com queijo colonial, fatias de cuca de uva, dispostos sobre uma mesa com toalha branca de crochê.

As senhoras , em pequenos grupos, seguravam pratinhos e guardanapos enquanto conversavam. Tentavam adivinhar qual seria a rifa: afinal os cartões haviam custado mais do que o preço de dois quilos de açúcar. Frau Jungfreund estava quase certa de que seria uma das famosas tortas da esposa do Pastor, ao passo que outras afirmavam ser um daqueles suportes para folhagens, feitos em madeira trabalhada e com painéis pintados à mão, muito em voga naqueles tempos.Os petiscos estavam prestes a acabar, quando Pfarrer[2] Schulholz tocou a campainha.

“Atenção, prezadas senhoras! Chegou a hora de nossa rifa . A venda dos cartões foi além das previsões e, poderemos alegrar um maior número de famílias com distribuição de roupas, alimentos e brinquedos nessa Páscoa. A nossa congregação agradece a colaboração das firmas comerciais, industrialistas, doadores anônimos, da OASE[3] que preparou os acepipes e montou essa linda mesa. E, agora, menção especial de gratidão à distinta Senhora Witwe[4] Funcksnell pelo objeto que, graciosamente, entregou para nosso sorteio. ”

Muitas palmas soaram no salão. Algumas das presentes queriam saber se a doadora viria para retirar o número do interior da caixa de metal. Frau Pfarrer Schulholz[5] comunicou-as que isso seria impossível : a viúva embarcara, em navio da Costeira para , no Rio de Janeiro, tomar um dos novos transatlânticos que aportaria em Gênova. Naquele momento, deveria estar por águas de Santa Catarina. Calaram-se todos. Nem sequer uma pergunta. Apenas olhares enviesados.

Wilhelmina, mulher do Pastor, tocou a sineta e pediu atenção: o sorteio iniciaria em minutos. Seu esposo já conduzia o professor da Escola Dominical ao tablado, no qual, sobre um parlatório, estava a caixa da sorte. Mine, apelido pelo qual era conhecida, encaminhou-se ao velho harmônio e bateu alguns acordes imponentes numa mistura de Bach e Beethoven (e Mine, claro). A um sinal de seu marido, parou o som e , naquele momento, o velho professor retirou o número , mostrou-o ao Pastor que o leu com solene tensão:

“ Ach! Vejo um dois! Alguém tem um 2 ? ” Muitas sorriam. “Agora , vejo o outro número ! Há entre as presentes alguém com outro algarismo além do 2 ?” Algumas pareciam bem nervosas, ao passo que outras já estavam fora do sorteio. “ E o número é…Mas, o numero é…27! Siebenundswanzig  ! VINTE E SETE!”

Incrédula, Frau Jungfreund abanou sua mão. Encaminhou-se ao tablado e mostrou seu cartão. Era o premiado, conferiram o Pastor e o professor. Chegara a hora de saber do premio embrulhado em papel pardo e resguardado por uma teia de cordinhas.

O professor , com uma tesoura, cortou quase uma centena de barbantes que garantiam segurança ao pacote.

O coro “Abre! Abre! Abre!” ecoava pelo ambiente. Ao retirar o último papel pardo, apareceu uma caixa coberta de veludo carmim, cuja minúscula chave fora pendurada ao fecho dourado por uma esmaecida fita de veludo. “Abre! Abre! Abre!” seguia, nesse momento, bem forte. Tremiam as mãos da contemplada. O professor cortou a fitinha. Ela recebeu, prestes a desmaiar, a chave e  abriu a caixa. Retirou, com dificuldade, um porta joias dourado. Professor, Pastor, Mine e a jovem senhora examinaram o premio. De repente, grita o Pastor, “ A caixa de joias é de ouro, ouro 18 quilates!” As paredes ecoavam  “É de ouro!” misturado ao zumbido das exclamações femininas.

“ É o que se pode ler na tampa da caixa de veludo e na parte inferior do porta joias. Deve valer muitos contos de réis. O que estará guardado nessa maravilha?”

Mine e o professor inspecionaram, bem de perto, o dispendioso objeto.

“Está trancafiado à chave. E não há chave”. O Pastor exclamou, quase aos grityos.

Mine demonstrou sua desilusão: como saberiam se havia, ou não, mais ouro na caixa?

Passava do meio dia, quando decidiram que caberia, apenas, à ganhadora do sorteio–e nova dona da caixa de veludo com o objeto de puro ouro edaquilo que poderia estar guardado dentro dele–resolver o problema da chave inexistente e do mistério da caixa de 18 quilates.

Frau Jungfreund colocou tudo na sacola de crochê que Mine lhe emprestara. Agradeceu a todos e foi para casa.

Sua cabeça pulsava com alegria e , até, certa dose de receio. “ Primeiro o ourives com sua desconfiança com as alianças a derreter, agora, eu—por que eu—recebo esse tesouro de Grete?”

Foto por Mausilinda.

Notas:

[1] Cerveja caseira à base de gengibre, sem álcool.

[2] Pastor . sacerdote.

[3] Organização Auxiliar das Senhoras Evangélicas.

[4] Viúva

[5] a esposa do pastor

One thought on “O OURIVES, FRAU JUNGFREUND E A CAIXA

  1. LOLY

    Adoro seu jeito de escrever, remete a mim quando escrevia estórias assim. Me encheu de felicidade ler esse texto hoje. ♥️

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