REVISTA QUEIMADA

ash blaze bonfire burn
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Titia falava difícil e lia muito. Havia pilhas de Eu Sei Tudo, Vamos Ler, A Carioca e sua coleção de Correio do Povo. Ah, e a Enciclopédia Jackson, de capa verde, que, volta e meia, folheava para poder discutir, plena de razão, com Vovó e Vovô, na hora do almoço de domingo. Lera tudo, mas gostava de guardá-los para folheá-los, à noite, depois do Repórter Esso.

Certa feita, ao chegarmos à cozinha, sentimos cheiro de papel queimado e deparamos com Titia ainda a alimentar o fogo com algumas folhas de revista na mão. Falou, em resposta a nossos porquês, que tivera motivo: “Muitas lágrimas derramei sobre aquelas revistas. Minha cunhada devolveu-as, num pacote atado com barbante, logo depois que seu marido se foi. Emprestara-as, quando ele foi para o Isolamento. Ficara lá, bem sozinho, só com  enfermeiros , freiras e com os outros doentes. A peste branca, como denominavam a tísica, é muito triste. Aparece devagarzinho, sem que a gente reconheça seus sintomas. Os enfermos definham a olhos vistos. Metade deles morre, apesar de submeterem-se a tratamentos doloridos, como a infiltração de ar para dentro dos pulmões, na esperança de curar feridas e fechar as cavernas em seus pulmões.”

“Como é que colocam ar para dentro das costelas? É tipo a bombinha de ar para encher pneus de bicicleta?” perguntávamos intrigadas com o que faziam os médicos para encher de vento o corpo dos doentes.

“No Isolamento do Centenário, há uma sala com macas para os infectados deitarem-se de costas e receber infiltração de ar através de uma seringa grande com uma agulha especial. Meu cunhado fez várias, mas não adiantou. Usaram sais de ouro, ventosas, purgantes, sangrias, óleo de fígado de bacalhau, creosoto e quinino antes de ele acabar no sanatório. Fez até operação pelo espaço, num Centro Espírita. Um médico, em Cacequi, tirou-lhe duas costelas para facilitar as infiltrações. Parecia um fantasma, no fundo da cama,com revistas espalhadas e respingado de sangue.”

Sabíamos que a história era triste sobretudo porque era de verdade, e, ainda por cima, de alguém que nos parecia meio parente. Titia já contara esse drama outras vezes, tantas que a palavra “ isolamento” exercia um fascínio sobre nós e criava imagens fortes e vermelhas em nossas mentes. Sim, porque, na primeira vez que a ouvimos, ela explicou tudo, tintim por tintim.

Não  queríamos escutar nada disso à noite, apesar de, antes de dormirmos, de um travesseiro para outro, na cama de casal que repartíamos com muitas brigas, iniciávamos o assunto, maldosamente, com o intuito de uma assustar a outra.

E os sonhos misturavam Margueritte, trágica heroína do romance de Dumas, A Dama das Camélias, com suas flores brancas e  infinitas dívidas , lívida em sua alcova, com os corredores vazios do sanatório , cheios da sinfonia da tosse daquele tio distante, que abafava e abanava suas crises com as folhas marrons da revista Carioca.

Certas  dessas narrativas marcavam conversas enquanto nos preparávamos para dormir. Uma era a dos gregos, ou romanos, que, para verificar se a morte aproximava-se , cada vez mais, de um doente, pediam que esse escarrasse em um pote com água do mar. Se o sangue descesse ao fundo do pote, o infeliz poderia ir preparando sua despedida do mundo:  logo a Foice iria buscá-lo  para o desconhecido.

Coitados, pensávamos, ficar esperando para saber o que aconteceria com sua cusparada grossa de sangue era pior do que ficar sem saber o que ainda havia pela frente. Entretanto essa era ainda leve, se comparada à do lume aceso: o fraquinho lançava seu escarro sobre as brasas vivas e, se saísse fumaça sem cheiro, ele, em breve, estaria curado; se subisse do lume um cheiro desagradável, podia, certamente,  encomendar sua mortalha.

“É verdade, li no Eu Sei Tudo. Mas acho que isso ainda pode ocorrer lá nos confins da terra. Nem precisam se preocupar, meninas. Não usam mais tais diagnósticos. Vocês são muito influenciáveis: qualquer potoca põe vocês com medo. Ninguém deve temer a verdade. Há muita coisa terrível no mundo que vocês precisam aprender. Talvez, mais tarde, esses conhecimentos possam ser úteis para a vida”, argumentava Titia.

Quando acompanhávamos Vovó em seu tratamento dos ouvidos, com o que parecia um travesseirinho elétrico, para sua inflamação, íamos até bem perto da entrada interna do pavilhão dos tuberculosos. Ficávamos sentadas , imóveis, observando a movimentação de médicos, enfermeiras e freiras. Às vezes, víamos alguém, magro e pálido, de roupão e amparado por uma freirinha, sendo levado a tomar sol na área da frente do isolamento. Tais visões nossa imaginação, acelerada pelas histórias de Titia, transformava em enredos dramáticos, nos quais a mocinha contaminada por seu noivo, condenado à morte próxima porque seu cuspe exalara odores insuportáveis ao queimar sobre brasas, ficaria enfurnada no poço da saudade, atirada no catre do sanatório à espera do fim.

Víamos, em noites de vento e trovões, o pavilhão encher-se de fantasmas que tossiam sangue e deliravam sem parar. Eram os antigos doentes que retornavam para ver se ainda encontravam algum companheiro de tosse e pneumotórax pelas enfermarias cheirando a creolina.

“Queimei tudo, até os barbantes” continuava Titia, referindo-se às revistas. “Elas passavam de mão em mão entre os pacientes. Não foi pelo medo de contágio, mas pelas amarguras armazenadas nas fibras de cada pedacinho dos retratos dos artistas, tão livres e sorridentes, em festas e filmes. Queimei as lembranças dos olhares lacrimosos de dias e noites longas presos naqueles retratos.”

Nós perdemos, dessa forma, a coleção  da Revista Carioca.  Sobraram-nos, muitos exemnplares do Jornal das Moças, Vamos Ler e Eu Sei Tudo.  Em dias cinzentos, voltamos a eles e , aí , assustam-nos  aqueles fantasmas dos leitores da Carioca e o azul espantado dos olhos de Titia.

 

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