VOVÔ VEM

Vovô despediu-se dos familiares e amigos que moravam em sua aldeia, lá em cima. Fora atendido nesse pedido em razão de sua fé e das orações que fizera, ao longo de quase noventa anos. Seria visita breve : havia muitas tarefas a esperá-lo. Antes de descer, pegou um lápis de marceneiro—José deixara-lhe muitos—e anotou , em sua cadernetinha—Pedro dera-lhe uma—os pedidos da turma.

Sua esposa ansiava que olhasse as netas, já adultas, e bisnetas que deixara ainda pequenas; notícias do filho (mesmo que esse nunca parecera amá-la). Titia, sua cunhada, desejava saber das meninas, de sua casa com gerânios e pés de malva. Queria que passasse pelo que fora a antiga fábrica de botões de seu marido. Ah, que lembrasse de ver como iam suas streletiae (“meus pássaros do Paraíso”) de seu jardim.

Vovô Antonio, seu sogro, interessava-se pelas bisnetas com as quais convivera por alguns anos: uma lhes fora entregue aos três meses de idade e a outra tivera difteria. A outra menininha, que, bem pequenininha, fora entregue à avó materna, estava muito bem: divertia-se com eles, entre as campinas, e dava aulas de canto para as criancinhas que chegavam lá cedo demais.

E, enquanto Oma não olhava para as nuvens de algodão,  Bisa Antonio cochichou para que Vovô desse uma passada pela turma da comilança e pescarias, na Beira do Rio.

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Oma, sua sogra, alertou-o sobre bisnetas, sobretudo a segunda, aquela que, com sua dedicação, salvara da difteria. Eram quatro, ao embarcar na ventania de uma crise aguda de angina, logo depois de acompanhar, pelo seu Ralfo[1], à cabeceira da cama, as desventuras de Albertinho Limonta, Mamãe Dolores e Isabel Cristina em mais um capítulo de “O Direito de Nascer”. Queria saber dos vizinhos da Lindolfo, como o Herr Ercílio, sempre incomodado por alergias. Ansiava notícias da Großße Straße [2], com suas casas bonitas e a calçada com os mesmos desenhos de Copacabana, sem falar na alameda de árvores que a ladeavam desde a pracinha do rio até a esquina de sua casa.

Vovô temia descer , lá do alto, e encontrar tudo destroçado. Como estaria a Fábrica? E…de que modo a vida tratara as meninas e as crianças? Levava o caderno e o lápis para registrar tudo, pelo menos o mais importante, que acontecia, agora, e o que ocorrera desde aquele dia, na cama distante—não a sua—na qual o largaram. Aliás, será que o Senhor havia sido justo com o casal que o abandonara?

Saberia, quando chegasse.

 

[1] Rádio de válvula.

[2] Rua Grande.

6 thoughts on “VOVÔ VEM

  1. monamerker

    Lembro do lapis de marceneiro, vermelho e tinha que apontar com faca afiada.
    Tenho certeza que ele nos protege la de cima e que Deus foi justo com o casal…

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