Soap Bubbles

Once upon a time

There was a grandmother.

Betsy was her name.

She lived all alone

With Chicken,

Her kitty.

Everyday,

Rain or shine.

Betsy went for a ride.

She groomed herself,

And picked a salt & pepper Channel suit,

Daubed on some Mitsouko air,

Decked her head with a frumpy

White turban

With a tiny feather,

Right in front.

She felt elegant in tweed,

Crocodile shoulder bag,

Her favorite perfume

(a memoir of their home at Park Avenue),

An the delicate old-time hat

At Columbus Circle

She took the bus.

And grabbed a seat

Two rows from the driver.

She bobbed up and down her seat,

Each time the wheels

Tramped over a streetcar rail.

She did not care:

They were riding

And the city was a movie

Playing by her side

on the window screen.

A smile freshened face and eyes.

Timework softened its weight,

As Betsy renewed her dream:

an open window,

a sharp mind,

And the breeze so sweet,

Thoughts flared her back

To beloved people and places.

She looked at her fellow passengers,

Along the aisle.

The sharers of Betsy’s escapade

Wore long

Drawn in faces.

She felt sorry for them.

Softly, she opened a delicate purse.

Behind the zip-lock bag of the daily medication,

She sheltered her favorite kit.

With a twinkle, she grabbed it.

Through the straw

(dabbed into gluey water),

The lady blew dances

Into rainbow clear balls

To the children’s souls

Throughout the seats.

Inside the bus,

Puffs of air carried crystal lights.

Soap bubbles laughed,

Soared and loaded the vehicle.

The passengers left.

Betsy lived on.

She is not Emily

Let’s say she is Emily.

She lived in Grovers’Corners.

Now, she is above the clouds

Among the townspeople she has loved.

The Stage Manager has granted her a chance to go back to life.

One day and not a second more.

“I know the day I’ll pick from the timeline:

My twelfth birthday.

An all-included package:

 Family, flowers from school sweetheart,

Freshly ironed dress, ribbons,

The smell of coffee, street voices.”

“What day of happiness would you choose?”

Asked the Director a woman on a chair

Two rows apart from the twelfth birthday girl.

No prompt answers.

“Years past, I would have had a response:

My wedding day.

Was it? It could have been.

Total happiness

We were one on the shelter of our vows.

Then, a sudden change,

Forever.

Vows discarded as trash,

For good.”

The Stage Manager calls on her to continue.

“I am not Emily!

I used chlorine bleach

Into his blemishes.

Though the more I washed,

The more my stomach ached.

And the stain persisted

In its bonds to dates, places,

Names, events.

The memory of photos seen just once

Grew my pain anew.”

The Director insists:

 “What day of happiness would you choose?”

She pushes the soft pedal:

Silence is her sole response.

Picture with touches of watercolor by Mausilinda

Featured

Penelopean Ulysses

She gets tired of waiting

in the hope:

He will want

And love her.

It has been decades

She has started this shawl.

Each row of knitting

Cries out for yearnings

Things past will return.

Ulysses is here

After long voyages.

His mind remains

On distant shores.

Penelope has pulled the yarn.

She reduced her work

To sad color balls.

Her needles worked anew

The heart he had destroyed.

She does not knit now:

Why will she waste

Fingers, yarn, and needles?

Penelope conks out:

“Ulysses, go back

To your mermaids!

You are far below my salt”.

ALADA, A FADA

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Vento leva

Meu pente.

 Tinha até um dente!

         Procuro com lente,

         Pela nuvem quente!

Cabelos em nó,

Pente no pó,

Estou tão só!

Só de dar dó!

Dó, ré, mi,

Fá, sol, lá, si

Canto para ti

Sopros de vento,

Agora bem lento.

Traz de volta,

Por favor, solta

Meu pente!.

Olha bem rente

Pelo pó,

Quente de dar dó,

Pela nuvem tão só!

Dó-ré-mi- fá-fá

Fá-dó-ré-dó-ré

Ré-ré-dó-sol-fá-mi!

Canto só para ti.

De repente,

Na boca da serpente,

Vejo meu pente.

Vento voando lento

entregou-me, sonolento,

pente e lente.

São teus,

Não meus.

Não tenho cabelos

Nem pelos.

Lente queima meus olhos,

            Já por demais vermelhos.”

Sussurrou rouca

A serpente.

Alada. a fada,

Pega pente, lente

E abraça a serpente!

Dó-ré-mi-fá-

Sol-lá-si-dó

De repente,

Kontente,

Rei do Poente,

Toma o lugar

Da serpente.

Fada e Kontente,

 Então,

Lá se vão.

Sua direção:

Nuvens do Oriente.

Nunca mais

Cabelos em nó

Pente no pó

fada tão só

de dar dó!

Dó, ré, mi,

Fá, sol, lá, si

Canto agora só para ti

Foto by Mausilinda.

VOVÔ VEM

Vovô despediu-se dos familiares e amigos que moravam em sua aldeia, lá em cima. Fora atendido nesse pedido em razão de sua fé e das orações que fizera, ao longo de quase noventa anos. Seria visita breve : havia muitas tarefas a esperá-lo. Antes de descer, pegou um lápis de marceneiro—José deixara-lhe muitos—e anotou , em sua cadernetinha—Pedro dera-lhe uma—os pedidos da turma.

Sua esposa ansiava que olhasse as netas, já adultas, e bisnetas que deixara ainda pequenas; notícias do filho (mesmo que esse nunca parecera amá-la). Titia, sua cunhada, desejava saber das meninas, de sua casa com gerânios e pés de malva. Queria que passasse pelo que fora a antiga fábrica de botões de seu marido. Ah, que lembrasse de ver como iam suas streletiae (“meus pássaros do Paraíso”) de seu jardim.

Vovô Antonio, seu sogro, interessava-se pelas bisnetas com as quais convivera por alguns anos: uma lhes fora entregue aos três meses de idade e a outra tivera difteria. A outra menininha, que, bem pequenininha, fora entregue à avó materna, estava muito bem: divertia-se com eles, entre as campinas, e dava aulas de canto para as criancinhas que chegavam lá cedo demais.

E, enquanto Oma não olhava para as nuvens de algodão,  Bisa Antonio cochichou para que Vovô desse uma passada pela turma da comilança e pescarias, na Beira do Rio.

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Oma, sua sogra, alertou-o sobre bisnetas, sobretudo a segunda, aquela que, com sua dedicação, salvara da difteria. Eram quatro, ao embarcar na ventania de uma crise aguda de angina, logo depois de acompanhar, pelo seu Ralfo[1], à cabeceira da cama, as desventuras de Albertinho Limonta, Mamãe Dolores e Isabel Cristina em mais um capítulo de “O Direito de Nascer”. Queria saber dos vizinhos da Lindolfo, como o Herr Ercílio, sempre incomodado por alergias. Ansiava notícias da Großße Straße [2], com suas casas bonitas e a calçada com os mesmos desenhos de Copacabana, sem falar na alameda de árvores que a ladeavam desde a pracinha do rio até a esquina de sua casa.

Vovô temia descer , lá do alto, e encontrar tudo destroçado. Como estaria a Fábrica? E…de que modo a vida tratara as meninas e as crianças? Levava o caderno e o lápis para registrar tudo, pelo menos o mais importante, que acontecia, agora, e o que ocorrera desde aquele dia, na cama distante—não a sua—na qual o largaram. Aliás, será que o Senhor havia sido justo com o casal que o abandonara?

Saberia, quando chegasse.

 

[1] Rádio de válvula.

[2] Rua Grande.

REVISTA QUEIMADA

ash blaze bonfire burn
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Titia falava difícil e lia muito. Havia pilhas de Eu Sei Tudo, Vamos Ler, A Carioca e sua coleção de Correio do Povo. Ah, e a Enciclopédia Jackson, de capa verde, que, volta e meia, folheava para poder discutir, plena de razão, com Vovó e Vovô, na hora do almoço de domingo. Lera tudo, mas gostava de guardá-los para folheá-los, à noite, depois do Repórter Esso.

Certa feita, ao chegarmos à cozinha, sentimos cheiro de papel queimado e deparamos com Titia ainda a alimentar o fogo com algumas folhas de revista na mão. Falou, em resposta a nossos porquês, que tivera motivo: “Muitas lágrimas derramei sobre aquelas revistas. Minha cunhada devolveu-as, num pacote atado com barbante, logo depois que seu marido se foi. Emprestara-as, quando ele foi para o Isolamento. Ficara lá, bem sozinho, só com  enfermeiros , freiras e com os outros doentes. A peste branca, como denominavam a tísica, é muito triste. Aparece devagarzinho, sem que a gente reconheça seus sintomas. Os enfermos definham a olhos vistos. Metade deles morre, apesar de submeterem-se a tratamentos doloridos, como a infiltração de ar para dentro dos pulmões, na esperança de curar feridas e fechar as cavernas em seus pulmões.”

“Como é que colocam ar para dentro das costelas? É tipo a bombinha de ar para encher pneus de bicicleta?” perguntávamos intrigadas com o que faziam os médicos para encher de vento o corpo dos doentes.

“No Isolamento do Centenário, há uma sala com macas para os infectados deitarem-se de costas e receber infiltração de ar através de uma seringa grande com uma agulha especial. Meu cunhado fez várias, mas não adiantou. Usaram sais de ouro, ventosas, purgantes, sangrias, óleo de fígado de bacalhau, creosoto e quinino antes de ele acabar no sanatório. Fez até operação pelo espaço, num Centro Espírita. Um médico, em Cacequi, tirou-lhe duas costelas para facilitar as infiltrações. Parecia um fantasma, no fundo da cama,com revistas espalhadas e respingado de sangue.”

Sabíamos que a história era triste sobretudo porque era de verdade, e, ainda por cima, de alguém que nos parecia meio parente. Titia já contara esse drama outras vezes, tantas que a palavra “ isolamento” exercia um fascínio sobre nós e criava imagens fortes e vermelhas em nossas mentes. Sim, porque, na primeira vez que a ouvimos, ela explicou tudo, tintim por tintim.

Não  queríamos escutar nada disso à noite, apesar de, antes de dormirmos, de um travesseiro para outro, na cama de casal que repartíamos com muitas brigas, iniciávamos o assunto, maldosamente, com o intuito de uma assustar a outra.

E os sonhos misturavam Margueritte, trágica heroína do romance de Dumas, A Dama das Camélias, com suas flores brancas e  infinitas dívidas , lívida em sua alcova, com os corredores vazios do sanatório , cheios da sinfonia da tosse daquele tio distante, que abafava e abanava suas crises com as folhas marrons da revista Carioca.

Certas  dessas narrativas marcavam conversas enquanto nos preparávamos para dormir. Uma era a dos gregos, ou romanos, que, para verificar se a morte aproximava-se , cada vez mais, de um doente, pediam que esse escarrasse em um pote com água do mar. Se o sangue descesse ao fundo do pote, o infeliz poderia ir preparando sua despedida do mundo:  logo a Foice iria buscá-lo  para o desconhecido.

Coitados, pensávamos, ficar esperando para saber o que aconteceria com sua cusparada grossa de sangue era pior do que ficar sem saber o que ainda havia pela frente. Entretanto essa era ainda leve, se comparada à do lume aceso: o fraquinho lançava seu escarro sobre as brasas vivas e, se saísse fumaça sem cheiro, ele, em breve, estaria curado; se subisse do lume um cheiro desagradável, podia, certamente,  encomendar sua mortalha.

“É verdade, li no Eu Sei Tudo. Mas acho que isso ainda pode ocorrer lá nos confins da terra. Nem precisam se preocupar, meninas. Não usam mais tais diagnósticos. Vocês são muito influenciáveis: qualquer potoca põe vocês com medo. Ninguém deve temer a verdade. Há muita coisa terrível no mundo que vocês precisam aprender. Talvez, mais tarde, esses conhecimentos possam ser úteis para a vida”, argumentava Titia.

Quando acompanhávamos Vovó em seu tratamento dos ouvidos, com o que parecia um travesseirinho elétrico, para sua inflamação, íamos até bem perto da entrada interna do pavilhão dos tuberculosos. Ficávamos sentadas , imóveis, observando a movimentação de médicos, enfermeiras e freiras. Às vezes, víamos alguém, magro e pálido, de roupão e amparado por uma freirinha, sendo levado a tomar sol na área da frente do isolamento. Tais visões nossa imaginação, acelerada pelas histórias de Titia, transformava em enredos dramáticos, nos quais a mocinha contaminada por seu noivo, condenado à morte próxima porque seu cuspe exalara odores insuportáveis ao queimar sobre brasas, ficaria enfurnada no poço da saudade, atirada no catre do sanatório à espera do fim.

Víamos, em noites de vento e trovões, o pavilhão encher-se de fantasmas que tossiam sangue e deliravam sem parar. Eram os antigos doentes que retornavam para ver se ainda encontravam algum companheiro de tosse e pneumotórax pelas enfermarias cheirando a creolina.

“Queimei tudo, até os barbantes” continuava Titia, referindo-se às revistas. “Elas passavam de mão em mão entre os pacientes. Não foi pelo medo de contágio, mas pelas amarguras armazenadas nas fibras de cada pedacinho dos retratos dos artistas, tão livres e sorridentes, em festas e filmes. Queimei as lembranças dos olhares lacrimosos de dias e noites longas presos naqueles retratos.”

Nós perdemos, dessa forma, a coleção  da Revista Carioca.  Sobraram-nos, muitos exemnplares do Jornal das Moças, Vamos Ler e Eu Sei Tudo.  Em dias cinzentos, voltamos a eles e , aí , assustam-nos  aqueles fantasmas dos leitores da Carioca e o azul espantado dos olhos de Titia.

 

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DESTINOS DESATADOS

 

crystal glass on a colorful background
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Roda ,roda , roda, ó –le-le!

Roda ,roda , roda, ó –le-le!

Do que Lelê precisava

Era uma boa palmada!

 

Sob a roda ,

Cobra espreita,

Entre detritos,

E alegria de fitas.

Amanhã , seguirá

—olhos de mangá—

A vigiar as mocinhas

—carrossel de borboletas—

Soltas num corrupio.

 

 

Morcegos

Mosquitos,

Lagartixas

poeira em rendas,

Trapos,

Sapatos de boneca,

Fitas.

 

Rodeia roda, rodeia,

Ao compasso do enlevo

Do Amor que as salvou.

Do quê ?

Roda gira

E, liberta, flutua:

O que poderia ter sido,

—passa, passará—

não foi.

E, longe de aranhas,

Cobras, pó , trapos,

Bruxinhas,

Morcegos e lagartixas,

Meninas

Saltitam entre flores.

Aplaudem

E louvam

A luz que receberam.

Roda ,roda , roda, ó –le-le!

Roda ,roda , roda, ó –le-le!

Do que Lelê precisava

Era uma boa risada!

 

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CLOSET WRITER

 

cold dark eerie environment

 

Miss Nobody writes

Stories, poems,

And in-limbo talk

Nobody wants to read.

 

Namby-pamby words,

Like soap bubbles, they plummet.

Invisible, they ebb there.

 

Miss Anybody laughs:

Stories and poems

Re-enter her heart

To revamp its beat.

 

Miss Woman dances:

Unknown, life goes on.

Not even Rumplestiltskin

Will discover her reverie.

 

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Velhas lembranças

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Foto por Mausilinda.

 

Das lembranças mais antigas,

um travesseiro pequeno

de penas;

fronha bordada com dois gatinhos

azul

rosa

e um novelo de linha amarelo.

Sol da manhã desenha luzes no tapete floreado da sala.

Cortina balança pelo quadro da janela.

E, no meio da paisagem da sala,

um bebê.

Rola pelo brilho

de flores,

folhas do tapete de sol.

Abraça travesseiro

Beija azul.

Beija rosa.

Beija amarelo.

Molha os olhos dos gatinhos

e a linha do novelo.

E a avó olha a menininha

tão cheia de sal e sol

devolvida à casa,

           vida,

             luz.

  Sente  canteiros de junquilhos,

cheiros da horta de feijões,

pimentões e milho,

salsa e cebolinha,

feixes de louro,

roncadores de couro,

histórias e cantigas,

meias cerzidas junto ao fogão,

cobertores exalando verão

 e a gata preta Luna .

Hoje, quando estou triste e quero voltar

(alguém

algum lugar)

lembro do azul,

   rosa,

 eamarelo

dos gatinhos e novelo de linha.

Sinto carinho dos avós:

abraçam a volta da criança

que, de saudade, quase se foi.

E quero rolar, mais uma vez, pelo amor

         e pela luz  

       do tapete limpinho

     e coberto de cor.

 

 

UMA CANOA

IMG_0244 Foto : Pexel

A canoa virou por deixarem ela virar

Foram tantas as redes

Que o barqueiro mal conseguia remar.

 

Se fosse uma fada e pudesse mergulhar,

Sem me afogar,

Traria barqueiro e presos peixes

Para praias de meu farol.

 

Se fosse uma fada e soubesse voar,

Sem me despedaçar,

Levaria todos para fora do sol

Pertinho do Mago Luar.

 

Se eu fosse um peixinho

Sem me estressar,

Soprava areia branquinha

Pelo fundo do mar.

Se fosse uma fada,

Jogava pirilimpimpim

Sobre redemoinho da canoa que virou,

                      Entre longas ondas do mar.

 

E cantaria sob o céu de luz.

E dançaria com peixes

E contaria ao barqueiro

Histórias sobre  estrelas do mar.

 

Não sou fada.

Não sou peixinho.

Mas posso sonhar

Com redes de tantas canoas

Que fadas

Peixes

Sonhos de piriimpimpim

Buscaram

Lá do fundo do mar.