ALL SAINTS’ Eve

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Halloween stirs soulless corpses:

Lamps they bear to

set paths free;

Ghouls wander near a sassafras tree.

The shadow of Death

—a stench so gross—

Haunts the spun yarn of grayish moss.

It shrouds a stranded row of crosses,

While pumpkin heads stomp their torches.

Across crossed out losses.

 

Jack o’ Lantern slumbers.

A lark sings as Magic sinks.

All Saints with hallows surge.

Ghouls purge their yearly sins.

Then drop off behind a church.

 

Behold, this time next year,

Get ready for the same fear…

 

Photo by Mausilinda.

FAXINA DA RAIVA

faxina remodelada 2

 

Casamento desmoronara há um mês. Ou seria, uma semana? Vassoura golpeava assoalho. Destruía teias de aranha gordas cuja existência ignorara em tempos de felicidade. Algumas, ali, misturando-se a seus cabelos. Como não as percebera? E, dele que te dele, vassouradas.
Em meio à bruma de poeira, recordava. Tulipas e amarílis vermelhas, ao sair do trabalho de professora, à noite, pelo Dia dos Namorados… E, assim, desconfiou que seu marido, o Jolmar, tinha outra mulher no pedaço. Suspeita transforma-se em certeza com a pergunta da amiga–“Gostaste das flores vermelhas e fresquinhas que, ontem, teu marido comprou para ti, pelo Dia dos Namorados?”–a respeito do orvalhado  ramalhete com o qual ela vira Jol—seu apelido—pelas oito da manhã de muito frio.
Iniciou o trabalho de juntar peças esquecidas do quebra-cabeça. Lembrou de como fora idiota ao limpar o carro e encontrar notinhas de supermercado com registros de compras de artigos que nunca vira em sua casa. Acreditara—que ódio!—na explicação do safado: comprara aqueles produtos para bebês,coisas como Nestogeno, fraldas, lenços umedecidos, todos para a coitadinha funcionária de limpeza da firma que ficara viúva e com duas criancinhas para sustentar. Mais fúria ainda, quando recordou do beijo que depositou, comovida, nos lábios—que nojo—do mulherengo.
E passava por sua cabeça a novela barata daquela tarde em que conseguira forçar uma amiga do salafra a dar-lhe a ficha completa da fulana, inclusive telefone e endereço. A informante, com dó da traída—ou querendo assistir ao barraco total—levou-a, em seu carro, até à comunidade em que a outra vivia. Encontrou-a de botas de verniz com cano alto, meia arrastão e macacãozinho de lycra, escorada à porta da boate Desperados ( só esses teriam coragem de entrar naquela espelunca), acertando preço de programa com alguém bem parecido com o compadre de Jolmar.

Era , olhando bem, o próprio: pai de três menininhas e marido modelo—conforme descrições melosas de sua comadre. Fez, por isso, questão de cumprimentá-lo.
A dançarina virou estátua , quando a traída arregaçou as mangas e iniciou a gritar um elenco de palavras nada elogiosas, dirigidas à mulher-dama. A informante precisou conter sua amiga, pronta para usar o ancinho encostado à cerca de arame farpado, pertinho do fusca.

Tudo terminara , ali. Jolmar tentou passar-lhe a conversa vazia e doce de repugnar, comum dos traidores: não tinha culpa, a fulana da boate insinuara-se para ele; fora naquela balada para acompanhar seu chefe; nada acontecera, além de…um beijo; nada havia entre ele e a tal dançarina das meias arrastão; somente tinha olhos e coração para ela, sua amada esposa.

Bufava de ira e nojo. Precisava limpar tudo. Finalmente, chegou aos estofados da salinha. Aí empunhou a vassoura e espantou deles marcas do homem que ali deitara, ou sentara, por tanto tempo. Bateu e bateu e bateu até perder o fôlego.

Os móveis choravam poeira, quando a moça recobrou a raiva e retomou os açoites.

Cansada, sentou-se, por uns momentos, no banquinho sobre o qual o fulaninho escorava seus pés descalços tomados de frieiras, cujo odor nunca a incomodara antes. Apaixonada a ponto de anular até mesmo o próprio olfato. Chegara até a lavá-los e a tratar suas feridas purulentas.

Como fora cega! Aguçou-se, novamente, sua gana de limpar sua casa e sua vida. Lá veio a vassoura outra vez. Tirara as cortinas para lavar. Quem sabe, melhor seria tê-las jogado no lixo ou queimado na churrasqueira: cheiravam a cigarro. Dele, claro.
Com a palha da vassoura penteou as sanefas largas e fundas. Serviço quase concluído, subiu no tal banquinho para confirmar a eficiência da varredura no porta-cortina de madeira. Só mais aquele cantinho da esquerda. Eis que as tramas de piaçava provocam uma chuva de Jontex coloridas, musicais e com texturas especiais que , raivosamente, atapetam parte da sala.
Examinou-as: o cafajeste , provavelmente, comprara tudo na viagem a negócios que fizera a Rivera. “Negócios, sim, conta outra”, falava enquanto juntava os preservativos. Nos últimos tempos, naquelas conversas DR, Jol confidenciara-lhe que o cardiologista o havia proibido de ter relações íntimas porque logo estaria na mesa de cirurgia para pontes de safena e, talvez, um transplante. E ela chorara tanto em seu ombro e, depois, no seu travesseiro cheio de insônia… Acreditara.
Colocou as Jontex em várias sacolinhas coloridas . Lavou as mãos com sabão amarelo e, depois, álcool. Ligou o computador e a impressora e, então, sorrindo , digitou anúncios. Recortou-os com a tesoura de picotar. Preparou uma espécie de kit: caixa com tachinhas, saquinhos de sacolé com três camisinhas em cada, vinte anúncios de prestação de serviços privé. Tirou o carro da garagem apertada e , decidida, pregou os kits em lugares estratégicos: saída de fabriquetas, paradas de ônibus, estações do metrô, entrada de bares duvidosos.
Voltou para casa e ria muito ao imaginar a cara da fulaninha ao receber tais telefonemas para marcar programas. Era óbvio que, com aqueles dados apelativos para a gatona manhosa e mais as três camisinhas estratégicas, os bobocas de plantão enlouqueceriam para tentar sua vez com a dançarina de poste.

A raiva passara e, em sua casa, perfumada de flores e ramos de eucalipto, deliciava-se com a novela da nove, uma Coca-Cola geladinha e um pedaço de pizza.

 

Qualquer semelhança com fatos reais é  mera coincidencia .

Ilustração by Mausilinda.

Fogo arrasa tudo

Baile da Neves final

O contexto da narrativa a seguir situa-se na longínqua década de 1950, em uma cidade no sul do Brasil. Telefones eram poucos. Apitos de fábricas e dos trens de ferro marcavam horas do cotidiano dos habitantes: a chegada do Caxiense ; o Operário, de manhã cedo, levava trabalhadores e estudantes a Porto Alegre e os trazia de volta à noitinha;o Noturno, ou Santa Maria, transportava gente que viajaria para as cidades da Fronteira ou , em Santa Maria, faria baldeação—como eram chamadas as conexões de hoje—para seguir, em outra locomotiva, em direção a outros estados, especialmente, São Paulo. Havia, além disso, o pontual sino da capela das Carmelitas a chamar para missas, desde às seis da manhã até às seis da tardinha. Durante a noite e pelas madrugadas , o guarda-noturno patrulhava as ruas e seus apitos, também, ocorriam em intervalos iguais.

As ruas eram tranquilas e bem cuidadas. Explico: o progresso do plástico não chegara para inundar ruas e calçadas; as pessoas compravam o necessário e os apelos ao supérfluo restringiam-se a propagandas em dois jornais e duas ou três revistas que atingiam apenas aos acostumados à leitura. A televisão era sonho, infelizmente, nem tão distante. Os cidadãos daquela cidade—bem como os de inúmeras outras—escutavam no rádio o Repórter Esso, através do qual sabiam o que acontecera no mundo há dois ou três dias e ouviam as manchetes locais, especialmente, notícias policiais, desastres, ações governamentais e esportes. As radionovelas , principalmente as das 8 e 9 horas da noite cativavam a audiência. O aparelho de rádio, a válvulas, colocado em ponto estratégico da sala, permitia trabalhos manuais, tarefas domésticas e voos da imaginação enquanto situações difíceis e/ou engraçadas adentravam a mente dos ouvintes.

 

O verão fazia dos adultos seres muito preguiçosos : só queriam saber de se abanar e de comentar como estava quente. Seus colegas de opinião, grudados às cadeiras, entoavam cantilenas sobre a falta de uma brisa sequer no mormaço sem fim. Outros discutiam previsões do tempo ouvidas no rádio, de acordo com a estação meteorológica de Antares e com o Instituto Coussirat Araújo, de Porto Alegre. Alguns desfiavam detalhes secretos de causos sobre mortos, viúvos e viúvas, ou novidades sobre idosos recentemente casados, ou amasiados, com alguma jovem que buscaram na Colônia ou que tiraram da Zona—área de luzes vermelhas destinada às mulheres da vida. Sobrava, ainda, tempo para lambancear sobre filhos bastardos—os mais idosos aplicavam-lhes o termo filhos da macega –e sobre quem eram os clientes dessas casas suspeitas, ou tocas da onça, como as chamava Vovô, lá do outro lado da Faixa Federal. Vira e mexe, largavam risadas sobre aquele baile…

O malfadado grande fato ocorrera num salão, na zona proibida, e costumava ser revisitado e engordado conforme a regra de quem conta um conto aumenta um ponto da vizinhança , em suas tranças sobre ventos e eventos de personagens da cidade. Era o Baile das Neves. A noitada acontecera num dos salões grenás das chinas—assim se referiam a elas—de roupas decotadas e justas de cetim, unhas longas e vermelhas, cabelos pretos, ou oxigenados, bem crespos e compridos, muito ruge nas faces pálidas, batom sangue nos lábios carnudos sobre os dentes podres, e lápis preto em pintas pelo rosto, nas sobrancelhas angulosas e nos contornos tortos dos olhos cansados. Essa era nossa—meninas entre oito e dez anos de idade—imagem delas através das descrições dos adultos.

E elas nos seduziam, com a mesma força de bruxas e fadas, pelo bizarro. Uma menina de um outro bairro contara à prima da prima de alguém de nossa turma que queria ser uma delas quando crescesse, porque eram tão lindas, sempre pintadas, prontas para o Carnaval. Falara que atravessaria a Faixa e nem levaria nada: compraria tudo novo nas lojas delas com as moedas de seu cofre da Caixa. Fugiria porque seus pais queriam que fosse normalista.

Nem minhas irmãs nem eu ousávamos verbalizar pensamentos sobre essas sirenas—Titia, outra vez—que conseguiam atrair otários. Às vezes, à noite, cruzávamos de carro, retornando com parentes de algum aniversário, geralmente em Novo Hamburgo, pela Zona. Esticávamos nosso olhar e virávamos o pescoço para acompanhar detalhes que nos auxiliariam a compor uma figura mais nítida daquilo que Vovô chamava de antros de perdição: as luzes vermelhas pelas portas e janelas e muito movimento na rua principal.

Uma tarde por semana, diziam, as mulheres da vida vinham ao centro. Cada mulher muito pintada que passasse pela nossa janela era uma delas, e ficávamos acompanhando-a até dobrar a esquina. Queríamos saber mais sobre elas, entretanto era impensável qualquer indagação, nem mesmo a Tia Ella. Ficaria apavorada com a pergunta e, sobretudo, com o que talvez soubéssemos sobre esse tema impróprio para crianças.

Bem, mas o Baile das Neves acontecera havia alguns verões e entrara para a história local. Os donos do salão e as mulheres que ali trabalhavam haviam enfeitado tudo com uma tonelada de algodão, numa imitação de neve. E era algodão sobre o oleado estampado de flores fenecidas nas mesas; sobre os crepons vermelhos que cobriam as lâmpadas pendentes do teto por fios elétricos engordados por excreções de gerações e gerações de moscas varejeiras; pelas cortinas de contas de vidro nas portas internas; pelas janelas e postigos que davam para a rua poeirenta; pelas palhas dos assentos das cadeiras engorduradas; pelo teto, em bandôs iguais aos das tendas dos haréns nos filmes das matinês; pelas centenas de folhas de coqueiros trazidas do Arroio da Manteiga; pelo palco de onde os músicos do regional tentavam espalhar tangos e boleros.

Pelas bordas da pista de danças de chão batido, a neve enredava-se nas rachaduras dos pés em saltos altos e por algumas esporas. E todos fumando muito, desde os músicos e garçons até as mulheres, com suas piteiras longas, e seus companheiros furtivos, com palheiros. E dança, risadas, bebedeira, jogatina e a atracação seguiam noite a dentro.

De repente, num dos quartinhos dos fundos, gritaram por socorro. No meio da zoeira total, só foram perceber que aquela fumaça não vinha apenas dos cigarros. Era um incêndio que já se alastrara pelo salão, engolindo algodão, crepons, palhas e as parte das roupas dos homens e mulheres do Baile das Neves.

Os bombeiros pouco puderam fazer pois, quando chegaram ao local, o telhado ruía sobre brasas do que sobrara do salão. Lá fora, mulheres eram levadas ao hospital para curativos, enquanto os homens fugiam, num salve-se quem puder, segundo Titia, para o outro lado da Faixa Federal.

No outro dia, no Café Central, frequentadores pontuais explicavam a amigos as gazes com mercúrio cromo, pomada e esparadrapo: tombos, atropelamentos, ataques de cães de rua ou coices de um animal da carroça de algum açougueiro ou padeiro, na madrugada. O mais difícil fora chegar em casa depois daquele serão na fábrica. Titia afirmava que as esposas apenas fingiram que acreditaram na história complicada. Alguns se cotizaram e conseguiram pagar para que o sinistro das Neves não aparecesse no Pau Bate, jornalzinho marrom da época. Entretanto, na calçada de nossa rua, todos sabiam quem tinha bailado lá, no meio daquele inferno de algodão.

Seu Ercílio, de pijama listrado e chinelos de couro fechados sobre os dedos, nosso vizinho da frente, ria e meneava a cabeça ao relembrar daquela confusão. Em seguida, como que para provocar novo rumo às conversas, apontava para o fim da rua e dizia: “Hoje, à tarde, estava carregado para os lados do Buraco da Fumaça. É água, na certa.”

Alguns anos mais tarde, seu Ercílio entrou para nossos mistérios ligados ao universo da riqueza de significado das palavras. O nome da estranha doença que o acometera era fogo selvagem. Fogo como o que derreteu o tal baile? Minhas irmãs e eu divagávamos, deitadas nos divãs do sótão, na hora do estudo, sobre os porquês de ‘fogo’ e de ‘selvagem’, sempre lembrando  das neves de algodão e daquelas labaredas no rótulo da garrafa de Fogo Paulista que Titia guardava, entre os livros de Tio Maarten, no armário de ébano do gabinete, logo à entrada de sua casa. Titia, como sempre, tomou a iniciativa, em almoço de domingo, à hora da sobremesa de arroz de leite, para comentar tal enfermidade a partir de leituras na Enciclopédia Jackson e na revista Vamos Ler.

O nome legítimo desse terrível mal é pênfigo foliáceo e nem mesmo os mais notáveis especialistas sabem qual sua etiologia. Os sintomas da moléstia começam por bolhas no tórax que vão, impassivelmente, se alastrando e invadindo todo o corpo do indivíduo, até que toda a pele pareça uma grande queimadura. E as bolhas não param nunca de sair. Quando uma parece que vai cicatrizar, mais meia dúzia de pequenos vulcões aparecem em outros pontos. E as pústulas, como na varíola preta, estão lá para sempre. O nome ‘fogo selvagem’ vem , não só das arranhaduras e feridas, mas da febre eterna. A pessoa acaba consumida pela doença e pelo estado geral de depauperação física.”

Vovó logo empurrou a tigelinha de vidro rosa com o doce salpicado de canela e recolheu a jarra de limonada da mesa, enquanto Titia serviu-se de uma segunda dose. Nós nos olhávamos e depois examinávamos o doce: a crosta de canela com açúcar, que nos atraíra inicialmente, perdera seu apelo, parecia uma casca de ferida!

E, em muitas outras ocasiões, ouviríamos descrições das chagas, dores, ardências , queimações e tratamentos—um , inclusive , com piche—do vizinho, tão bondoso e calmo que passava muitas tardes à janela, com sua mulher, a contemplar o movimento . Numa noite de minuano, deixou-se consumir pela última labareda daquele fogo fundo.

Titia, debruçada sobre sua almofada, no janelão da frente de nossa casa—defronte às janelas tristes de seu Ercílio—matutou, em voz profética : “O mundo vai acabar e será , ouçam bem, por combustão. Chamas nunca vistas, ou sentidas, consumirão tudo e todos…

Ficamos perdidas entre as possibilidades da palavra fogo: a da bebida de queimar a garganta; a de doença, como a que abrasou em chagas o corpo de seu Ercílio; a das labaredas altas do Baile das Neves. E, agora, mais a do fim de tudo…

 

Nota: Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência.

Ilustração by Mausilinda

BEHIND BARS

 

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I long for days of plain things:

chairs on sidewalks

strolls along the streets

playing in the park

opening and closing

a wooden door…

Relentlessly they catch us:

sidewalks

streets

park

the iron-fenced door…

Villains go unbound:

thieves

robbers

rapists

murderers

representatives…

Corruption deprives us

schools

health

highways

safety…

Where is virtue hidden?

Why do wolves wear shields?

They twist Humans Rights:

                                 La raison du plus fort est toujours la meilleure (1).

And sheep must accept fangs…

What country is this?

Children mugged

killed

for a pair of tennis shoes!

Girls and boys

Teens and adults

robbed

violated

shot !

Buses set ablaze

Out of savagery!

Democracy?

 

I pulse for PEACE:

chairs on sidewalks

strolls along the streets

playing in the park

opening and closing

a shaky door…

 

[1] Jean de la Fontaine. Le Loup et l’ Agneau in Les Fables-Livre 1.

 

Poem by Marli Merker Moreira published in The Poetic Bond V, T. Maynard (Editor), Willowdown Books, UK, 2015, ISBN 978-1517783808.

Photo by Mausilinda.

 

 

Os CHINELOS de NERUDA

 

casa de neruda april2011

Invado quarto do Poeta:

Cama de casal

—mistério de musas—

Colcha

—quadrados, bordados, franjas—

Dois travesseiros

—suor, ronco, baba.

Cores rasgam simplicidade .

 

Ali, bem ali ,

Sob mesa de cabeceira

—quase caixa—

repousam cansados

chinelos de muitas insônias.

 

Devagarzinho,

Meu pés acariciam

Memórias alheias.

Cerro olhos.

Ninguém me vê.

E lá me vou , pela janela.

 

Poeta sussura,

Só para mim:

Traz, numa concha,

esse Pacífico de sonhos.”

 

Volto.

Será?

Sinto, no bolso rasgado,

Brisa de sal em espuma,

Lascas de valvas

Em sonolentas solas

E o som de passos do Poeta.

Será?

 

 

Fotografia de La Sebastiana (uma das casas de Pablo Neruda), Valparaíso, Chile, por Mausilinda.

The House in the Picture

  

In a corner of the room

There is a chair

Chair holds picture

Picture is portrait

Portrait sifts time.  
 
House in a picture,

Painted anew,

Swallows eyes.

It lights up again

Snippets of yore.

House of the portrait

Munches this room

As it rolls out secrets

Unbolted by windows.

 

Picture of the house

Makes music of silence:

Some seal off their ears;

Someone brings it here.

House of the portrait:

Chair at the corner

Strums solitude.

It covers couple

In odd shadows

And thrums slashed strings

Through locked shutters.

 

House of the portrait

A casa do retrato 4

And chair in the room

Rock lust in refrain

 

In a corner of the room

There is a chair.

Chair holds picture,

A portrait of a house.

It slams into view

A couple, chair, and shadows.

 

It reveals windows

That only reverie can keep ajar

Inside those vacant eyes

—dormant dancers of desire. 

 
House in the picture

Shelters known ghosts

Of passion and hate.

Their sins, however, snatch at us,

Unfurling doors we try to latch.

 

Poem published in The Poetic Bond IV. Trevor Maynard (Ed.), Willowdown Books, UK, 2014.

Illustration by Mausilinda

FIRST KISS

 

 

They dance.

He holds her.

His incoming beard touches

her face

And they fly beyond German song

that speaks of yearnings.

She does not know

this tune

will be treasure,

secret,

and her only treason

And they go beyond seasons

within that dance,

trance.

So schön, schön war die Zeit…

His mouth pants in her ear,

Travels to bless her shy lips

a memoir of their yesterday kiss.

Her brown eyes host

–forever—

the blue skies on his.

Organza fluffs in roses

And feels the wool of his suit.

It tingles petals, ribbons, and skin.

So schön, schön war die Zeit…

And they fly beyond song.

Longing:

Life future could bring…

School days end.

He departs.

So schön, schön war die Zeit…

Love remains

treasure,

secret.

So schön, schön war die Zeit…

Song has never stopped.

She flies beyond clouds,

where his mouth still whispers

words of that dance.

And her soul feasts

on the essence of his kiss.

Time so beautiful,

so beautiful it is…

First kiss edited

Moreira, Marli Merker. First Kiss in The Poetic Bond II, p.40, Trevor Maynard (Editor), Willowdown  Books, UK, 2012.

Illustration by Mausilinda

A Portuguese version by the author:

 

Primeiro Beijo

Dançam.

Ele a abraça.

Sua barba recente

Roça a face dela.

 

E voam além da canção alemã

Cheia de saudades.

Ela não sabe:

Essa melodia

Será, um dia,

Tesouro,

Segredo

E sua traição única.

 

Elá lá se vão os dois,

Além das estações ,

Naquela dança,

Transe,

Trança.

 

So schön, schön war die Zeit…

Seus lábios ofegam ao ouvido da menina,

E viajam até a timidez de sua boca

–memória de beijo de ontem.

 

Seus olhos castanhos hospedam

–para sempre—

O céu azul dos dele.

Organza farfalha rosas,

Enquanto casemira escura

Dissolve-se entre pétalas e fitas.

 

So schön, schön war die Zeit…

E voam além da canção.

Esperança:

Futuro que vida traria…

 

Dias de aula terminam.

Ele parte.

So schön, schön war die Zeit…

 

Amor permanece

Tesouro,

Segredo

E prece…

 

So schön, schön war die Zeit…

Música segue…

E ela voa para além daquelas nuvens,

Nas quais ele respira

Palavras da dança distante.

 

E sua alma se adoça

na essência daquele beijo.

 

Tempo foi lindo.

E lindo é ainda…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mirandolina e os Grãos Mágicos

Marco livro3 1

Era uma vez um circo: toldo forrado de cetim colorido; picadeiro coberto pelas mais finas serragens de cedros da Ásia; tigres albinos da Sibéria; leões africanos; gorilas e chimpanzés do Congo; cavalos brancos e negros da Áustria. Havia pôneis de todas as cores, com crinas longas e lustrosas. Os palhaços encantavam a plateia com histórias cheias de sotaques. Suas focas treinadas jogavam bola com as crianças das primeiras filas e algumas até sopravam melodias, em suas cornetas de metal dourado. A vida no circo seguia alegre e farta. Era o circo mais rico do mundo. Sabem por quê?

Não, não eram as focas, nem os elefantes, tigres, leões, macacos, camelos ou cavalinhos. Nem os trapezistas , malabaristas ou os guerreiros que brincavam com ursos pardos do Novo Mundo.

Quem trazia, então, tanta gente, fama e dinheiro ao circo? Quem?

Mirandolina é a resposta. E quem é, ou era, Mirandolina? Era a pequena bailarina que voava, sem asas , fios invisíveis , roldanas ou redes de segurança para aparar sua queda, se, um dia, não conseguisse voar. Voava sozinha!

Bem, mas esta é uma história longa: o segredo estava na caixinha lacrada com grãos de pó que Mirandolina recebera de sua mãe, a qual, por sua vez, recebera-a da mãe de sua mãe, e que fora herança da mãe da mãe da mãe da mãe da mãe da mãe de sua tetravó. Os tais grãos, na verdade, eram um composto de partículas de ouro com os quais um gnomo retribuíra a bondade daquela antiga dama por tê-lo resgatado de uma feroz armadilha para prender tiltapes—pequenos roedores de carne macia, pele fofinha e de patinhas que os habitantes locais utilizavam como amuletos poderosos contra males do corpo e da mente.

Quando aquela mãe da mãe da mãe da mãe da mãe da mãe da mãe da mãe da mãe da mãe da tetravó de Mirandolina caminhava pela floresta de Analonga, na proximidade de uma gruta funda, ouviu os ais do gnomo, já quase desfalecido. Tirou-o da armadilha, levou-o para sua caverna e acomodou-o em um leito de barba de pau , alecrim e sândalo, bem ao pé do fogo. Lavou-lhe os ferimentos com uma mistura de arnica, cidreira, guaco, malva e raízes de valeriana. Havia na poção um ingrediente mágico que apenas ela conhecia: uma receita de família, antiga como o tempo e a terra e as grutas e as árvores.

Aos poucos, o gnomo ficou curado. Antes de retornar a seus afazeres—de gnomo, claro, e por isso, não sabemos bem quais eram—tirou, lá do fundo falso de seu gorro, uma caixinha e entregou-a à mãe da mãe da mãe da mãe da mãe da mãe da mãe da mãe da mãe da mãe da tetravó de Mirandolina. E falou com a voz esganiçada dos gnomos: “Nesta caixinha há grãos mágicos capazes de grandes transformações. Porém, são apenas três grãos. Três grãos, não mais do que três grãos. Os poderes são segredo irrevelável e a caixa deverá ficar, sempre, com a mulheres de sua prole, isto é, com as filhas de suas filhas e assim por diante”. Então, rodopiou e rodopiou e mais dez vezes rodopiou até sumir no redemoinho de poeira e vento de tantos corrupios.

A mãe da mãe da mãe da mãe da mãe da mãe da mãe da mãe da mãe da mãe da tetravó de Mirandolina, curiosa, abriu a caixa. Pensava que fosse alguma guloseima exótica, colocou, sob sua língua, um grãozinho, só para provar. Queria, além disso, ver se produziria algum efeito. O certo é que desconfiava que aquela história do gnomo fosse pura lorota. E assim que o grão derretia—tinha um gostinho de mel com capim cidró—sentiu um grande arrepio, seus pés tremeram e, de repente, subia e subia e subia acima das grandes árvores. Era uma águia.

E o circo, o que tem a ver com os grãos e o gnomo? Outra longa narrativa. Mas, para encurtar, passaram-se alguns séculos e, numa tarde de domingo, uma bela jovem—avó da tetravó de Mirandolina—passava por um povoado, quando se deparou com uns animais esquálidos, em um circo abandonado, com o toldo de remendos remendados. A avó da tetravó de Mirandolina parou e perguntou ao dono a razão de tanta pobreza. “É que ninguém mais vem aqui: estão cansados de animais, palhaços e bailarinas. Preciso de uma nova atração para salvar circo, palhaços, domadores, bailarinas, malabaristas, trapezistas e animais”.

Foi naquele instante que a avó da tetravó de Mirandolina lembrou-se da caixinha que carregava em seu avental de linho, e falou: “Serei sua próxima atração! Confie em mim e seu circo será famoso no mundo inteiro”.

O resto vocês já sabem.

Há filas intermináveis para o espetáculo. Os aplausos reboam pelas planícies. Hoje é um dia especial para Analonga : celebra trezentos anos da morte do último dragão. Crianças enchem camarotes, cadeiras e arquibancadas com seus pais, avós, tios, amigos, primos. E todos, todos mesmo, desde a criançada e suas famílias e vizinhos até vendedores de rosquinhas , extasiam-se ante a beleza e fragilidade de Mirandolina, quando esta surge no meio do picadeiro em seu vestido azul e verde. E gritam: ”Mirandolina! Mirandolina! Mirandolina!”

Ela escuta, mas sonha com o cavaleiro dos pôneis do qual recebera, minutos antes, um beijo na mão e a flor que traz à sua cintura. Coloca a mão no pequeno bolso invisível do vestido e tira, dali, um grão. Leva-o à boca vermelha. Corre, depois, de braços abertos pelo picadeiro e saúda a todos. A plateia aplaude a linda menina. Mirandolina faz seu pliê e impulsiona-se, após, em um salto. Palmas e mais palmas dos presentes.

Começa a voar sobre as cabeças dos que ocupam camarotes, cadeiras comuns e arquibancadas. “Mirandolina! Mirandolina!”, aplaudem crianças, adultos, vendedores de doces e quinquilharias.

Subitamente, faz-se um silêncio. A orquestra pára, também. Mirandolina rompe o toldo, como se um ciclone a carregasse em sua fúria. Dela resta, apenas, um ramo de miosótis do qual escorria uma lágrima de ouro sobre a serragem do picadeiro. O príncipe dos pôneis recolhe a gota de ouro e coloca-a na algibeira de seu gibão.

Poderia ele usar aquele último grão derretido para buscar sua amada? Será que o encanto quebraria? Poderia valer-se do poder do grão uma vez que esse cabia, apenas, ao clã daquelas mulheres das grutas cobertas de musgo?

Enquanto meditava, um buraco enorme no toldo amarelo, azul e vermelho filtrava o céu infinito…

Ilustração by Mausilinda

O guarda-chuva e um machado

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E na terra do Sempre—bonita era a do Nunca, de Peter Pan e seus amiguinhos—tranquilidade não havia. Sempre era um vórtice de angústia para inocentes que não pediram para nascer.

O casal, parecia, escolhera como passatempo favorito selecionar atividades lúgubres para finais de semana em que Muluh era obrigada a  visitá-los. Atividades hilárias apenas para os dois e , ainda que traumatizassem as meninas, sua diversão superava tudo. Afinal, nem queriam essas chateações que precisavam banho e comida e que, para tornar tudo pior, choravam de fome, ficavam doentes, tropeçavam, queriam brincar só para sujar a roupa e precisar de mais um banho. A única vantagem em tê-las estava justamente na fonte de risadas sádicas que as menininhas lhes proporcionavam.

Era um domingo de verão. Após o café da manhã, com pão francês que a mãe fatiava ao comprido (era muito esforço serrá-lo em tamanho normal, mesmo que as meninas precisassem usar as duas mãozinhas para segurar seus preguiçosos pedaços de pão dormido) , na verdade, toras de pão besuntado de schmier colonial sem manteiga (só passava manteiga em seus egoístas pãezinhos especiais, bem quentinhos). Não coava o leite, fervido várias vezes, do qual grossas camadas de nata e bolhas de gordura emergiam nas canequinhas. Choravam implorando para que passasse o tal café com leite pela peneira de metal, enquanto ela, indiferente aos apelos, sorvia sua mistura tentadora de Nescafé e leite condensado diluídos em água. Geralmente, alguém vomitava de repugnância, mas, aí, ela com aquele olhar único, servia uma nova dose, mais fria e graxenta. Rosinha e Marie ensinaram às irmãs o grande truque: despejar a nauseante bebida pelo buraco da caixa de gordura da cozinha. Era somente aguardar a saída dela da mesa e, pronto, lá se iam películas espessas de nata, bolhas gordurentas e a calda fria de café, leite com muitas colheradas de açúcar cristal.

Após essa desmazelada refeição, pai e mãe iniciaram longa sessão de cochichos. Olhavam para as meninas e lançavam-lhes fingidos meneios de cabeça, supostamente consternados.

O almoço foi qualquer coisa da pensão da Dona Odila. Preocupação com o que aconteceria superava, nas três irmãs , qualquer rasgo de fome; Rosinha tinha apenas três anos e ainda não conseguia captar o peso das nuvens que se formavam na casa. Seus estômagos padeciam com o farfalhar de borboletas noturnas que neles penetravam atraídas pela intensa tensão.  As irmãs estavam com medo do medo que sentiriam logo que lhes revelassem o motivo de sussurros tão persistentes.

E a hora chegou. Ela conduziu Muluh, Marie e Monique até a área gradeada em verde. Apontou, a seguir, para o velho cepo de cortar lenha com o grande machado ali fincado. E comunicou às guriazinhas, entre teatrais soluços de sofrimento, “Hoje, assim que vocês saírem para a matinê”…

Não queremos ir na matinê! Nem tem desenho! ” retrucou Marie com firmeza.

Machado no cepo 2.jpeg

Tá passando Tico-Tico no Fubá! Não tem graça!”, continuou Muluh.

Tá muito calor!” finalizou Monique.

A mãe deu um beliscão bem torcido, com suas unhas compridas e fininhas, nas meninas. Prosseguiu com a frase que ficou, até os dias atuais, na mente daquelas crianças rejeitadas: “Hoje, assim que vocês saírem , o pai de vocês vai me matar com aquele machado, ali! Vocês tem que sair porque haverá muito sangue. Vocês não devem ver isso! Está quase na hora! Vão se arrumar e peguem o guarda-chuva porque o sol está forte!

Guarda-chuva é para chuva. No sol, é sombrinha!”, teimou Marie. E mais um beliscão forte.

Rosa foi largada no berço. Suas irmãs, então, colocaram vestidos iguais—o tecido rosa com bolinhas brancas fora presente do outro avô—confeccionados pela Avó paterna—a que recebera Muluh aos três meses de idade—a partir de um modelo do Burda. Receberam um guarda-chuva enorme e a ordem de “Chega, vão embora logo! O pai de vocês já está afiando o machado para não doer muito quando cortar fora minha cabeça. Adeeeeeeeuuuuus!”

E a mulher repetia, como disco estragado que o marido decepar-lhe-ia a cabeça e que aquela seria a última vez que a veriam. Por dentro, bem dentro, havia um suspiro de alivio. Isso era pecado. Ninguém podia manifestar conforto com o desaparecimento de alguém, ainda que essa pessoa não fosse bondosa. Monique, Marie e Muluh desceram a escada encravada na laje do morro ao som do coro “O pai vai me matar, agora. O pai vai me matar, agora. O pai vai me matar, agora.” Enquanto o homem brandia a machadinha e gargalhava.

Ao tocarem o pó da estrada, começaram as irmãs, escondidas sob o monstruoso guarda-chuva. num dia de sol a pino, a berrar, “SOCORRO! SOCORRO! O pai vai matar a mãe! SOCORRO! SOCORRO! O pai vai matar a mãe! Vai cortar a cabeça dela com o machado! Vai cortar a cabeça dela com o machado!”

Os vizinhos foram , todos, para os portões. E as meninas suplicavam que as ajudassem. Pediam que, pelo amor de Jesus, impedissem esse crime.

São loucos! Como podem afligir desse modo as meninas! São uns monstros!” gritavam as mulheres.

As três irmãzinhas, idades 8, 7 e 6, tremiam sob a grande mariposa preta. Antes do cinema—ordens deviam ser cumpridas sob  pena de flagelantes ameaças—deram uma chegada na serenidade da casa da Avó e, perguntadas por que estavam cobertas de lágrimas, Muluh contou , apenas parcialmente. a história e pediu que suas irmãs ficassem com ela até segunda-feira. Os Avós entreolharam-se , deram um dinheirinho para a pipoca, abraçaram as netas e concordaram.

O filme foi feio e complicado demais para quem já levava vida quase trágica. Voltaram, de mãos dadas, para o lar dos Avós. Os pais, pensaram as três, que se entendessem: elas seriam felizes naquele agora, doce e carinhoso.

Será que a gente ainda tem aquela mãe? ”, preocupou-se Marie.

Pessoas sem cabeça podem entrar no Céu? ”, indagou Monique.

Acho que os dois morreram! Agora vocês ficarão, aqui, com Vovó para sempre! ”, completou Muluh.

Um dos vizinhos, meio ligado ao sobrenatural, jurou que vira raios de luz partindo daquelas crianças sofridas. A luz era divina e indicava que suas vidas mudariam : ficariam aos cuidados de quem as amava. Era coisa do inominável maltratar , constantemente, crianças pequenas que só precisavam de amor.

Dona Odila, da pensão, testemunhou para a Avó que , naquele malfadado dia, as meninas receberam a Graça celestial em forma de raios de luz. Ela– benzia-se repetidamente–mesmo vira aquela luz emanando das crianças. Em meio a tamanha injustiça, as crianças receberam a bênção da luminosidade…Um milagre!

 

Ilustrações by Mausilinda

 

Grandma ’s coffee pot

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Drops glaze memories

The lid cannot confine.

 

At night, in the cupboard,

They unlatch the door.

Coffee and tea they pour

Into China demitasses.

They kindle ashes

Into bonfires from the past.

And its warmth

they sip.

Side by side

they sit.

Silence speaks

Of the shine they miss:

Girls around the table

                        butter

                        bread

                        coffee and milk

                        that chink in the saucer

                        laughter

                        dreams.

Ghosts, they thread queries:

“Are they happy?”

“Have they made it

 After our departure?”

“Has the Witch’ s chagrin

Smothered their dreams?”

 

A robin sings.

They rush back into the coffee pot.

Cupboard doors shut them in.

 

As I enter the room,

Bach fiddles

Unseen strings…

And spout is a flute.

It splashes into my ears

Fuses of a fugue

                Out of Grandma’s coffee pot.

 

Photo by Mausilinda